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Hall Paxis

Integrada na rede nacional Hall, esta imobiliária atua em todo o distrito de Beja.

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Entrevista a Paulo Monteiro

 

Paulo Abreu Lima foto.jpeg

 

Paulo Monteiro, mais conhecido por Paulo Abreu Lima, 1º classificado na categoria Poesia na 1ª Edição do Prémio Literário "Do Mosto à Palavra", nasceu em Angola, mas há várias décadas que adotou Beja como sua. É autor e compositor de canções simples e singelas, um cunho igualmente aplicável à sua personalidade. Os poemas de Paulo Abreu Lima têm vindo a conquistar muitos dos grandes e conceituados intérpretes nacionais, como sejam António Zambujo, Rui Veloso, Raquel Tavares, Cuca Roseta, Ana Moura, Mariza. O célebre tema “Feia de Castro”, na voz de Mariza e a versão portuguesa de “A Thousand Years,” interpretado pela mesma cantora e por Sting nos jogos Olímpicos de 2004 são temas da sua autoria. A par disto, conta participações em cinco edições do Festival Português da Canção.


1- Em termos de geografia literária, o Alentejo ocupa um lugar privilegiado na poesia portuguesa. Grandes poetas como Miguel Torga ou Manuel Alegre, por exemplo, não sendo alentejanos, dedicaram – lhe composições vibrantes e emotivas. 
Sendo natural do norte do país e tendo vivido uma parte da sua vida em África, que lugar ocupa em si e, por consequência, nas suas obras este Alentejo?  


Ao contrário do que se diz por aí, para mim existe mais do que um sol, na terra. E o Alentejo, comprova isso mesmo, como fotocópia de outros sóis que conheci em África...Faltam-nos os leões, é certo, mas temos os lobos das serenatas ao luar e esse sabor tão igual e mágico de um tempo sem pressas, que se estende pela imensidão das planícies travestidas de.savanas...

Aqui, como lá, (desse lá que persiste na minha memória) a solidão reinventa-se para que possa existir mais tempo para pensar sem a pressão urbanizada e doentia do "pronto a comer"... 

À volta de uma mesa -- qual fogueira em chão de estrelas e solidões compartilhadas, também a açorda com coentros vai chegando devagar e tão apurada quanto os cantes que se cruzam temperados de espontaneidade e anonimato... 

Aprendi com a minha África Alentejana que a partilha do prato e do cante são elos que vão directos à alma...

Por isso, e por mais que a distância real  procure desmentir evidências, todas as "auto-estradas" dos meus sonhos confirmam pertencer ao Alentejo  o atalho mais curto para as terras de onde vim... 

Mas é no emaranhado das memórias enfeitiçadas por tantas luas e sóis à mistura, que se torna mais fácil perceber essa fonte inesgotável dos Guadianas onde tantos poetas gostam de beber... 

 

"De dia guardo rebanhos,

 À noite sou marinheiro...

 Faço veleiros com sonhos,

 Navego por mar trigueiro"...

 

Aqui, nas planícies de trigo deste  enorme celeiro de palavras, onde a inspiração se respira,  os "poetas de longe" só precisam mesmo de trazer papel, -- resmas de papel, e uma grosa de lápis afiados.Porque  nós forneceremos para além do pão -- de inigualável sabor, um vinho abençoado pelos deuses e o cante de tantas tradições e histórias por contar e encantar... 


2- Encara o cepticismo, próprio do ganho de experiência, como um adjuvante ou como um bloqueador da liberdade no processo criativo? 

Esta pergunta daria certamente "pano para mangas", e quem sou eu -- sem grande jeito para as cerzir...

O cepticismo instala-se com o tempo na realidade das expectativas que ficaram por cumprir. Uma passagem por vezes dolorosa do menino que acreditou vir a ser o príncipe encantado num conto de amor, para o adulto que afinal nunca passou de um reles plebeu à porta de uma "espelunca"..

O impacto, a cada tropeço de um sonho mal resolvido, pode ser adjuvante, bloqueador, ou quantas vezes a conjugação dos dois na liberdade criativa. Uma espécie de intermitência sem definição precisa...

Mas, e falando mais cá para os "meus botões", penso que o cepticismo não impede que na poesia se dê asas ao sonho por muito que ele se contradiga no pensamento do homem, que não o poeta... 

E citando o António Gedeâo: 

"Eu, quando choro,

 não choro eu.

 Chora aquilo que nos homens

 em todo tempo sofreu.

 As lágrimas são as minhas

 mas o choro não é meu."

Este é o exemplo de quem chora os outros, mesmo sem razões aparentes para chorar...
No cepticismo "puro e duro" ou na "crença exacerbada" os extremos tocam-se e confundem-se, não servindo da melhor forma o poeta  que existe dentro do homem...
Um porque deixou de acreditar em "milagres"  e o outro porque neles cegamente crê. 
E distanciados da virtude que indaga, investiga e se interroga, sobra-lhes pouco do poeta a quem tão assertivamente já chamaram de fingidor.
Mas porque já ultrapasso o "pano para mangas" de costuras tão sensíveis e à medida de cada fato... termino com uma quadra de um poema  que de certa forma me pode definir contradizendo...

 

" Sou ateu, mas acredito

   Que me possa converter

   Dar o dito por não dito

   Meu, amor, só p´ra te ver"....

 

Ou para os mais cépticos mas com sedes de esperança...

 

"Palavra é semente

  Na terra carente

  Dos sonhos reais"...


3- O isolamento a que muitos meios pequenos estão sujeitos no interior do país, traduz-se, inúmeras vezes, num acesso restrito à cultura, nas suas mais variadas formas de expressão. 
Diga-nos uma medida que poderia ser implementada junto das populações, com o fim de promover a literatura? 

Bem que queria, e aqui sim, disfarçar o cepticismo acumulado no "entulho" do que se vai observando em relação à pergunta, onde muito se remenda, mas pouco se tapa! E valorizando primeiro tantas iniciativas locais que nos vão dando uma réstia de luz ( e a Biblioteca de Beja serve bem de exemplo) entendo cada vez mais quem parte desses lugares sem mapa, à procura de "melhores horizontes" e maior esperança.

Porque na verdade a relação de forças e oportunidades entre o "campo" e a "cidade" não se compadece com a "poesia" daqueles que intimamente gostariam de ficar ou que sonham voltar... 

E mal do pai que, a coberto de um amor egoísta, castre o filho dos seus sonhos, prendendo-lhe as asas ao sentimento de uma terra onde já foi semente e raiz...

Porque hoje, e infelizmente, as "malas" dos nossos meninos isolados em paraísos esquecidos, são mesmo para se fazer, por mais que retenham na memória, essa última imagem de uma espécie de comboio com destino à Casa Branca... Um atraso nos horários que  para um estudante "emigrante" e optimista vale sempre o tempo de mais uns abraços à partida... ou a espera de quem imagina que num futuro distante -- quem sabe, um avião possa levantar directamente de Beja com escala na Casa Branca antes que chegue a Lisboa... ( Lembrei-me agora, e não sei porquê, do meu amigo Bruno Ferreira...)      

Enquanto não percebermos que a preservação do património passa impreterivelmente pelos lugares mais recônditos do nosso país -- relíquias sem preço nem paciência para os falsos arrufos eleitorais, o problema é de fundo e sem fundo. E como condição primeira deveriam adoptar-se medidas efectivas de fixação à terra. Não de quem chega para usufruir da "calmaria" na sua casa de  férias, mas para quem, sendo dela seu filho predilecto, legítimo ou adoptado, parte sempre com vontade de voltar... 

Em boa verdade a desertificação existe no interior pela diferenciação inqualificável de tratamento e pelo ostracismo a que está votado. E pondo de parte boas intenções de que dizem estar o inferno cheio, na prática dos nossos governantes, tudo o que existe para lá da orla costeira -- salvo raríssimas excepções, é paisagem. Para turista ver -- presumo eu, e os nossos políticos se lembrarem durante as campanhas eleitorais.

E das duas uma. Ou se compensa o isolamento a que muitos meios pequenos estão sujeitos, levando a impossibilidade da "montanha a Maomé" ou se criam condições efectivas para que os seus filhos pródigos por razões de sobrevivência, à casa voltem. Com a certeza de que eles sim, seriam o primeiro alicerce garante dos oásis que nos fariam menorizar os desertos... Um problema ligado ao futuro das gerações vindouras deste presente demasiado virado para o seu próprio umbigo...

Na correlação de forças o equilíbrio da balança depende da justa medida dos seus pesos, com as devidas ressalvas...

E nos centros urbanos de maior dimensão, basta a rua para que indubitavelmente se tropece na cultura. De tal jeito que saindo dela se torna difícil optar perante tanta diversificação e desperdício...

É uma constatação verificar a evolução e a "revolução" cultural de quem, por razões de sina e sobrevivência, deixa o seu pequeno "burgo" em direcção à cidade. E os estudantes são bem o exemplo disso. Esses mesmos estudantes que levam consigo as raízes esculpidas até ao cerne, e que de lá poderiam trazer os frutos prementes aos seus lugarejos tão ávidos de semente...

Outro desperdício que por este andar torna o nosso País de tal modo inclinado para os lados da costa, que do peso -- não tarda, se entorna ou parte...

Os últimos  incêndios que nos devassaram a alma, são bem o exemplo de um desgoverno com mais de quarenta anos e ainda à deriva... Para mal dos nossos pecados! E sem pôr em causa liberdades conquistadas, é preciso em definitivo assumir os erros que já não se desculpam nem se descarregam invariavelmente no passado de um ceguinho mais do que defunto e já com barbas... 

E para que a cultura chegue urgentemente à desertificação dos lugares por replantar, a lei da "vassourada" impõe-se nas Assembleias das Repúblicas sem alma, como um remédio santo contra os ácaros das nossas mais impertinentes alergias...

Até lá valha-nos Deus -- acaso exista, e a teimosia de um punhado de resistentes que contra marés e correntes faz das "tripas coração" pregando no oásis desse deserto em que não deixaram de acreditar...

"Do mosto à palavra" é um exemplo do que se deve e pode fazer pela literatura. Bem hajam! 

 

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