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Hall Paxis

Integrada na rede nacional Hall, esta imobiliária atua em todo o distrito de Beja.

Hall Paxis

Integrada na rede nacional Hall, esta imobiliária atua em todo o distrito de Beja.

"Investir no maior ativo de um território, na capacitação das pessoas que aqui habitam para um Alentejo empreendedor"

Márcio Guerra é um nome que imediatamente relacionamos com empreendedorismo social, inovação e pensamento "fora da caixa". Profundamente comprometido com causas sociais, é acérrimo defensor dos Direitos Humanos, tendo a maior parte da sua actividade como base as pessoas e as suas condições de vida. Uma entrevista que nos faz pensar e refletir e que, de alguma forma, inspira algo daquilo que é a obrigação social de todos e de cada um de nós, enquanto cidadãos e enquanto empreendedores. 

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 Todo mundo nasce empreendedor. Alguns tem a chance de libertar essa potencial. Outros nunca vão ter a chance ou nunca souberam que tinham essa capacidade.
Muhammad Yunus





Criar e maximizar valor social é o principal objectivo do empreendedorismo social. Atendendo à realidade da nossa região, que transformações urgentes e prioritárias considera serem passíveis de implementação, numa óptica de interação e simbiose com outras vertentes do empreendedorismo (corporativo e start-ups), no sentido do desenvolvimento sustentável?

Partindo do conceito de que o empreendedor social redesenha relações entre comunidade, governo e setor privado, com base no modelo de parcerias e que o resultado final desejado é sempre a promoção da qualidade de vida social, cultural, económica e ambiental sob a ótica da sustentabilidade dos territórios, eu diria que o empreendedor social pode desempenhar um papel fundamental na criação de um ecossistema com preocupações sociais através da sua relação com empreendedores corporativos e empreendedores de “start – ups” sensibilizando-os para modelos de negócio sustentáveis, amigos do ambiente e do “homem”.

As relações entre comunidade, governo e setor privado não significa que haja uma retirada do estado no que à economia e definição de políticas públicas diz respeito, ou seja a fragilidade das respostas públicas até pode fazer com que a sociedade civil se organize e crie associações com respostas inovadoras, mas a verdade é que deve ser o estado (governo e autarquias) a garantir determinados serviços e investimentos públicos fundamentais para o desenvolvimento das regiões e do país, procurando estimular um espirito empreendedor em que a lógica de parceria múltipla, possa fomentar uma maior participação de empresas privadas, como forma mais reprodutiva de utilizar recursos.

Aliás o pensamento de que menos estado, nos leva a melhor estado e a abordagem da inovação social que aparece sempre em períodos de pós-crise social restringindo-se à procura de respostas para questões sociais novas quando na realidade se vive uma harmonização social no retrocesso e se transporta o conceito de inovação social para noções de subsistência deve-nos alertar para este perigo. O que acontece com a destruição do Estado Social é que se despojam as pessoas dos seus direitos de cidadania num quadro em que são colocadas em situações de carência extrema, e assim a inovação não pode ser senão uma inovação regressiva, construída a partir de bases sociais de desigualdade, injustiça e exclusão. Quando se permite que a sociedade "propositadamente empobreça” e depois se arranja maneira de colmatar essas carências, estão-se a matar as verdadeiras condições para inovar, porque a inovação social que é precisa é a inerente à cidadania social, é a das pessoas portadoras de direitos e responsabilidades e que sejam estimuladas a libertar o seu espirito criativo e empreendedor.

Assim o que é necessário para que haja verdadeiramente inovação e ocorram as transformações na nossa região é a de que esta relação e trabalho em rede resulte em parcerias entre o sector público e privado de forma a ultrapassar em conjunto os vários desafios que temos na nossa região em virtude de um crescimento que nos vai mostrando que, se não se colocar a pessoa no centro da intervenção ao invés da economia, vão surgir desigualdades sociais.

Sabemos que, em muitas situações, há efetiva necessidade de aumentar a produção, de crescer; mas não é qualquer crescimento, nem o crescimento em qualquer parte, ou a qualquer preço, que gera desenvolvimento.

Assim e não descurando o importante impacto que Alqueva teve no Baixo Alentejo particularmente em termos económicos, contudo, o modelo associado ao desenvolvimento do projeto estimulou a concentração da propriedade; aumentou as preocupações ambientais e a destruição do património cultural. Não promoveu o povoamento, não reduziu o desemprego, sendo o trabalho feito com recurso a mão-de-obra barata de imigrantes, e algumas vezes ilegais (só em 2017 foram mais de 10.000 imigrantes nesta situação); e não dinamizou substancialmente as economias locais, a não ser alguma empresa de fornecimento de serviços e equipamentos de regadio.

Este modelo coloca em evidência uma exploração assente num crescimento económico (em que as opções orientam-se para um crescimento elevado do PIB per capita), gerando desigualdades sociais no território ao invés de um desenvolvimento sustentável da nossa região no plano humano, ambiental e social.

Assim o que é verdadeiramente necessário é a inovação numa agricultura inclusiva diversificada, amiga do ambiente e do património arqueológico, em que o sector privado da agricultura assuma a sua parte na criação de um modelo económico verdadeiramente orientado para o desenvolvimento regional e para a coesão social e territorial. Que invista na responsabilidade social e através de parcerias públicas e privadas possam criar condições para combater a imigração ilegal e clandestina, apoiando na constituição de gabinetes de atendimento e acompanhamento ao imigrante que possam dar formação a estas pessoas na língua portuguesa, na nossa cultura, direitos e legislação, combatendo desta forma o tráfico e a rede ilegal de mão-de-obra. Que invista em projetos que preservem o património arqueológico e promovam roteiros turísticos para a sua visita e para a observação da apanha da azeitona e da transformação do azeite. Projetos de sensibilização ambiental e de capacitação dos seus colaboradores com vista á implementação de boas práticas.   

O que é verdadeiramente necessário é a inovação num turismo diferenciador, inclusivo e acessível a pessoas com mobilidade reduzida parcial ou total, de acesso a pessoas invisuais ou com problemas de surdez. Se é verdade que em 2017 o Alentejo recebeu a visita de 65. 388 Turistas representando um aumento de 11% comparativamente ao ano de 2016, não é menos verdade de que mais de mil milhões de pessoas no mundo vivem com algum tipo de incapacidade, dos quais cerca de 200 milhões experiencia dificuldades notáveis em termos de funcionamento. Nos próximos anos, a deficiência e a incapacidade serão uma preocupação ainda maior pois a sua prevalência está a aumentar, devido ao envelhecimento da população e ao maior risco de incapacidade na população sénior, bem como ao aumento global das doenças crónicas. Em Portugal, em 2011, aproximadamente 40,5% das pessoas entre os 15 e os 64 anos tinham pelo menos um problema de saúde ou doença prolongados e 17,4% tinham pelo menos uma dificuldade na realização de atividades básicas (INE, 2011).

Para pensar nestas e noutras transformações para o nosso território é necessária a criação de um ecossistema de empreendedores no Baixo Alentejo com preocupações no plano do desenvolvimento sustentável.

Portugal tem hoje um dos mais vibrantes ecossistemas de empreendedorismo da Europa mas será que o Alentejo e o Baixo Alentejo em particular, à sua dimensão pode também entrar num roteiro empreendedor nacional ou internacional, apanhando a “boleia” deste bom momento nacional e ser diferenciador na forma como o dinamiza?
O que temos de fazer ao nível das políticas locais e regionais, das estruturas de apoio, do financiamento, da cultura empreendedora e do capital humano para que tenhamos um ecossistema mais vibrante e humanista? Quais são os principais desafios e que passos devemos dar?

Estas são perguntas e desafios que passam naturalmente por criar um ecossistema de empreendedores. Um movimento social diversificado que congregue paixão, conhecimento, iniciativa, resiliência e transformação, que crie valor e promove a autorrealização do individuo, oferecendo a resposta a muitos problemas societais e/ou supre simplesmente necessidades de mercado.

 

Sabemos que são muitos os desafios sociais atualmente existentes. Desafios esses que, na maioria das vezes, encontram espaço em determinadas organizações, cujo eixo de actividade permite o seu trabalho, levando à mudança efetiva. As associações, as organizações e as instituições particulares de solidariedade social são as estruturas mais frequentes. Fale-nos um pouco sobre o papel das associações e da importância de exercer, hoje em dia, o associativismo.

 

Devemos ter sempre presente de que pela sua própria natureza, o Homem tem necessidade vital de se relacionar com o outro, de criar laços de cooperação e de entreajuda, de desenvolver projetos comunitários, de trocar experiências, de viver e de conviver com as pessoas que vivem junto de si ou nas suas proximidades. Sempre assim foi e sempre assim será

Falar sobre o papel das associações hoje em dia, é termos a consciência de que alguns dos direitos consagrados na Constituição da República emanam deste importante movimento social, uma vez que o mesmo está intimamente ligado às principais transformações sociais, e política, verificadas com o advento do liberalismo, das ideias propagadas pela Revolução Francesa e pelo surgimento da Revolução Industrial.

De forma natural e dado que o Associativismo é uma emanação da sociedade é óbvio que a evolução da mesma “obriga” a ajustamento e ao aparecimento de novas formas, foi o que aconteceu com o 25 de Abril de 1974, pelo que e de acordo com a Confederação Portuguesa das colectividades de cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD): “Cerca de metade das associações que hoje temos em Portugal decorrem do 25 de Abril de 1974, a par do substancial aumento do número de associações, mais dois factos se verificaram: as coletividades mais “clássicas” diversificaram em muito as suas atividades e por outro lado, emergiram ou reforçaram-se outros tipos de associativismo: de defesa (património, consumidores, à vítima, etc.); movimento de moradores; juvenil e estudantes; ambiente e ecologia; de pais e da família, pessoa com deficiência etc. Mais tarde, na década de oitenta do século XX: as IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) e ADL (Associações de Desenvolvimento Local).”

Se no passado o associativismo teve o seu “berço” na Revolução Industrial, hoje estamos na Era da Informação e do Conhecimento pelo que é fundamental que se coloque este vasto património ao serviço da sociedade atual, dai que a importância de exercer um papel ativo enquanto dirigente associativo é fundamental tanto mais que ainda é nas associações que os jovens de hoje podem exprimir a solidariedade, experimentar novas respostas, agirem como fator de transformação e inovação social ao elaborar e concretizar um projeto comum de carácter coletivo e de raiz social. Valorizarem-se enquanto pessoas através do trabalho voluntário e benévolo como pilar estruturante da economia social, assumindo o exercício da democracia conduzindo a uma efetiva cidadania.  

Em suma participar no associativismo é ter uma vida autenticamente humana, uma vida verdadeiramente feliz.

 

 

Em Beja, que Associações com um papel preponderante a nível social existem, quais as suas missões e as principais dificuldades que enfrentam?

Qual é a percentagem de participação dos jovens nestas entidades e quais são as suas principais preocupações?

 

No concelho de Beja existem cerca de 300 associações equiparadas a coletividades de cultura, recreio e desporto, instituições particulares de solidariedade social, associações juvenis, estudantis, ambientais e de defesa do património, entre outras denominações, que têm um importante papel na dinamização de um conjunto de iniciativas e projetos nas mais diferentes áreas de atuação, quer ao nível, educacional, cultural, desportivo, social e ambiental.

De uma forma geral a missão passa em primeiro lugar por um importante contributo na prestação de serviços aos seus associados e à comunidade de uma forma geral no acesso à cultura, à atividade física, ao recreio e ocupação dos tempos livres de centenas de crianças. Por outro lado procuram contribuir de forma consensual, para o debate na esfera pública, trazendo contributos para a deliberação de políticas públicas importantes para o nosso concelho. 

Se não há dúvida que este movimento que atua no chamado terceiro sector tem auferido uma maior visibilidade na sociedade portuguesa e no nosso distrito em particular, também não é menos verdade que esse protagonismo (seja junto do Estado, da sociedade civil, ou ainda dos meios de comunicação social) parece recair sobretudo sobre a ação das IPSS’s e de outras Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD).

Este fator prende-se pelo facto de vivemos num distrito e num concelho em que a maioria da população é envelhecida e dai que as associações e instituições de cariz social tenham um peso relevante na nossa comunidade. Reflexo desta realidade é o facto de só na Rede Social do Concelho de Beja, estarem representadas mais de uma centena de entidades e associações que trabalham sobretudo neste sector possuindo uma grande importância ao nível da provisão de serviços sociais através do estabelecimento de acordos de gestão e de cooperação com o Instituto da Segurança Social.  

As dificuldades com que este importante movimento social se depara são diversas porque estamos a falar de um movimento associativo que por um lado é composto na sua maioria por trabalhadores por conta de outrem e que após o seu trabalho se dedicam de forma voluntária aos objetivos da sua associação o que nem sempre garante estabilidade na ação, por outro lado estamos perante uma vasta rede de intervenção cívica nas diversas vertentes, em especial nos domínios cultural, desportivo, recreativo e social que presta um verdadeiro serviço público. Muito simplesmente, se não forem as associações a fazer o trabalho que fazem – isto é, a desempenhar as funções sociais que desempenham – quem o fará? E caso esse trabalho não seja feito, que consequências acarretará essa situação em termos sociais?

Assim e pela minha experiência enquanto dirigente associativo apontaria seis (6) grandes preocupações, entre outras que haverá, sobre as dificuldades que este movimento sente:

1 - O necessário e devido reconhecimento por parte do governo e dos poderes públicos da importância social do associativismo nomeadamente quanto às políticas de apoio para a construção de infraestruturas e aquisição de equipamentos2 – Não existem mecanismos adequados de incentivo ao dirigismo associativo popular, nomeadamente um Estatuto Social do Dirigente, que alargue o recrutamento e permita a necessária renovação das lideranças nas associações. 3 – Constata-se a falta de oferta de programas de formação adequados às necessidades de qualificação de recursos humanos destas estruturas. 4 – Existe um défice de comunicação das associações com os seus públicos interno (associados, atletas, colaboradores e demais intervenientes internos) e externo (população em geral). 5 – No plano autárquico, faz falta um Gabinete de Apoio ao Movimento Associativo (GAMA) que trabalhe e articule com os dirigentes associativos do concelho, com o IPDJ e outras entidades na definição de uma estratégia de atuação municipal nesta área. 6 – Promoção de uma rede formal, que promova conhecimentos, partilha de experiências e boas práticas deste importante movimento um pouco por todo o concelho e região, que possa em conjunto trabalhar possíveis fundos comunitários com particular enfoque para as questões do empreendedorismo social e da economia social e solidária.  

Sobre a participação dos jovens neste movimento e apesar de Portugal dispor de uma legislação própria que enquadra o movimento associativo juvenil através da Lei n.º 23/2006, de 23 de Junho, estabelecendo o regime jurídico do associativismo, esta participação apresenta assimetrias no quadro da região Alentejo.  

No plano nacional e à data de dezembro de 2017 estavam inscritas em Portugal Continental cerca de 1434 associações no RNAJ, sendo que no distrito de Portalegre este número é de 17 associaçõesjuvenis ou equiparadas, no distrito de Évora são 41 associações juvenis ou equiparadas e no distrito de Beja são 6 associações juvenis ou equiparadas.

Os números demonstram que no quadro da legislação em vigor e do RNAJ, o distrito de Beja apresenta um número muito baixo quando comparado com os distritos de Évora e Portalegre, contudo e apesar de não acreditar que os números possam aumentar significativamente, o mesmo não corresponde à realidade do associativismo juvenil, uma vez que muitas associações têm na sua composição jovens, com uma efetiva participação mas que por não cumprirem os critérios do artigo 3.º da lei n.º 23/2006, de 23 de Junho, que estabelece o regime jurídico do associativismo não são consideradas associações juvenis.

Quanto às preocupações dos jovens manifestadas neste movimento eu dividia em dois aspetos. O primeiro tem a ver com o motivo que os leva a formar uma associação, e nesse sentido muitas vezes falamos de questões associadas a gostos pessoais pela dança, cante alentejano, desporto, etc. O segundo aspeto prende-se com a mudança das preocupações e prioridades resultante da sua participação enquanto dirigente associativo ou associado na associação. Nesse plano as preocupações que os levaram a constituir a associação alteram e passam a assumir outras preocupações que se prendem em muitos dos casos com o seu futuro, em ser solidário, a querer participar na vida política da sua comunidade e país, em preservar o ambiente. Começa a haver um despertar de consciência social e cívica com indignação perante injustiças sociais nomeadamente a fome, a pobreza e a exclusão social e a despertá-los para a edificação do bem comum. 

 

 

“Quanto maior for o impacto das medidas, maior será a probabilidade de revolucionar o pensamento social.” Esta premissa pressupõe que para além dos efeitos imediatos, em menor escala, se pretendem resultados de maior dimensão, capazes de proliferar no tempo e no espaço. Considera que o meio onde nos inserimos limita, em parte, a capacidade de reinvenção? Que barreiras deverão ser quebradas e de que forma? Seremos nós mais resistentes à mudança, ou a ideia criada em redor do Alentejo, das suas potencialidades e das suas gentes entranhou-se de tal forma no seio da comunidade das grades zonas urbanas, que nos tornámos insignificantes e desinteressantes aos olhos do próprio país?

 

Na minha opinião e no que ao empreendedorismo social diz respeito a escala per si não é um valor relevante. Arquimedes disse um dia “Dêem-me um ponto de apoio e eu levanto a Terra”. O que pretendo dizer é que da aprendizagem de um projeto com potencial de empreendedorismo social, como por exemplo o Fit Salvador e os Heróis da Agua do concelho de Beja, a Vida Vale do concelho de Odemira, a Estratégia para o Desenvolvimento e Promoção da Fileira dos Recursos Micológicos no Baixo Alentejo de Mértola ou os Núcleos de Voluntariado de Proximidade da Fundação Eugénio de Almeida de Évora, podemos desenhar outros projetos, evitar erros futuros, replicar o modelo noutras zonas do país ou mesmo fora dele. O que importa é a qualidade, o método, a organização, os processos de trabalho, os resultados junto das pessoas e o impacto que têm na sociedade do ponto de vista social. Depois de tudo isto vem a escala dos projetos.

O progresso do empreendedorismo social em Portugal, nos últimos anos, tem sido de facto muito relevante, com alguns projetos no Alentejo e no distrito Beja particularmente que estão consideradas como iniciativas ES+, que mudaram a vida de muitas pessoas.

Muhammad Yunus, empreendedor social e prémio nobel da Paz dizia que “Todo mundo nasce empreendedor. Alguns tem a chance de libertar essa potencial. Outros nunca vão ter a chance ou nunca souberam que tinham essa capacidade.” Julgo que esta afirmação é o retrato do desafio maior que temos para reinventar o Alentejo, investir no maior ativo de um território, na capacitação das pessoas que aqui habitam para um Alentejo empreendedor.

Do ponto de vista técnico, se ensinarmos as pessoas a serem empreendedores ou o que é o empreendedorismo social, podemos não saber se vamos criar empreendedores mas sabemos que disponibilizámos para as pessoas um conjunto de ferramentas que lhes permite passar dos sonhos para as acções. E isto leva à segunda faceta do empreendedorismo: a pessoal. E esta faceta tem que ver com três ideias chave: a capacidade de questionar, a capacidade de sonhar e a vontade de fazer coisas. A capacidade de questionar leva à análise e ao aparecimento de problemas. A existência de problemas estimula a criatividade e leva ao desenvolvimento de ideias passíveis de se constituírem como soluções para os mesmos. A existência de soluções desencadeia motivação para as implementar.

Assim algumas das barreiras que deverão ser quebradas passam por dar o acesso a estudos e investigações já realizadas, nas mais variadas áreas de atividade, estreitando o percurso para conhecer a realidade do empreendedorismo social em Portugal e na região, de forma a potenciar a criação de soluções no momento certo, no lugar certo, para a pessoa certa. A falta de recursos é uma das principais razões com a qual os empreendedores se deparam, o que leva a um processo mais moroso para o desenvolvimento do empreendedorismo social, impedindo o progresso de determinados projetos, oportunidades de negócio, iniciativas, que podem servir para combater o desemprego, o abandono escolar precoce, o suicídio, a iliteracia, ou a exclusão social de pessoas com deficiência, entre tantos outros problemas.

Outro aspeto vai para além de empenho e dedicação que os empreendedores sociais demonstram, estes precisam de ser escutados, apoiados, para conseguirem atingir os seus objetivos bem como o restrito e complexo sistema de apoios comunitários que inviabiliza oportunidades de negócio, com potencial de sucesso.

Apesar de haver uma certa resistência à mudança da parte das pessoas ainda assim julgo que o peso maior tem a ver com o facto de persistirem algumas debilidades, apesar dos investimentos comunitários. Falo de constrangimentos relacionados com a regressão prolongada da demografia regional, o reduzido dinamismo do tecido empresarial, as limitações acentuadas nos sistemas e redes com potencial para atrair novos fluxos de investimento e a sustentabilidade problemática da mais-valia ambiental que não alavancam o desenvolvimento do potencial que temos e nesse particular os sucessivos governos não têm olhado para o interior de Portugal e para o nosso Alentejo da forma como deveriam olhar, com o respeito e igualdade de oportunidades que permitam re-inventar esta região, de forma a tentar minimizar o flagelo da desertificação que está a abranger todo o Alentejo.

 

 
O objectivo do empreendedorismo social passa por identificar situações de negligência ou desfavorecimento de uma determinada facção da sociedade, construindo caminhos e encontrando soluções para as causas primordiais, ao invés de se tratarem somente os sintomas através dos quais se manifestam essas carências/diferenças. Para isto, o trabalho corporativo em rede é crucial. Reunir “cabeças pensantes” capazes de capitalizar esforços e unir comunidades que se pretendem solidárias com as diferenças socias é, talvez, a base para que se consiga dar à sociedade as ferramentas necessárias para que se trabalhe a mudança.

Se lhe fossem concedidos 5 min de tempo de antena na televisão, que mensagem gostaria que transmitir que elucide com clareza o potencial de desenvolvimento da região, e a importância da conjugação de esforços nesse sentido, por forma a atraír e fixar investimento que traga mais-valias à região?


O Alentejo é uma região atrativa num contexto de afirmação de Portugal como fronteira atlântica da Europa e do "hinterland" ibérico, em particular.
A sua proximidade com Lisboa e com o Algarve, toda a orla marítima e as relações de vizinhança com a Espanha, em particular com a Extremadura e a Andaluzia, colocam o Alentejo numa posição privilegiada em termos empresariais, num quadro de articulação nacional e transnacional.

Somos uma região que conta com cinco selos da UNESCO em vários patrimónios imateriais e materiais e que tem potencialidades por valorizar, desde a junção de terra/mar, existe também uma diversidade de encantos históricos, naturais e gastronomia e vinhos, que fazem desta região única.

Tal como uma página em branco de um livro, nesta imensa planície falta escrever a sua parte, seja construtor da nossa história e invista nos encantos do Alentejo.  

"Uma marca que é preciso assumir, promover e valorizar. O Baixo Alentejo é um diamante em bruto"

"Comediante, actor, cronista, dobrador, escritor, Bejense e Sportinguista”, assim se apresenta nas redes sociais. Quem o conhece sabe da profunda paixão que nutre por Beja. Incansável na divulgação e promoção do território baixo-alentejano, interventivo e frontal, Bruno Ferreira, está hoje connosco à conversa.


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Ainda de acordo com o mesmo jornal, constata-se que o Baixo Alentejo é a terceira região mais produtiva do País, logo depois de Lisboa, com 109,5% ou seja, bem acima do todo nacional, enquanto o AA (Alto Alentejano e o Alentejo Central) se situam a meio da tabela com 92,3%, portanto abaixo do todo nacional.



Bruno, a faculdade levou-o para Lisboa e é lá que tem desenvolvido a sua vida profissional, mas Beja tem-se mantido sempre no seu coração. Ao invés de tantas outras pessoas que partem e raramente voltam, o Bruno é uma pessoa assídua na cidade e acompanha de perto o que por aqui se vai passando. Quer falar-nos um pouco sobre isso?

É verdade. Saí de Beja em 1993, com destino a Lisboa, para me licenciar em Relações Públicas e Publicidade, um curso no âmbito da comunicação, de um modo geral, mas focado na comunicação empresarial, de forma mais particular. Em boa verdade já tenho mais anos de Lisboa do que de Beja, o que faz de mim, como costumo dizer a brincar, um Lisbejense. Tive a fase normal de afastamento, como todos os jovens que saem das suas terras rumo a uma cidade grande; é o período do encantamento, do conhecimento e descoberta, de novas pessoas e novos espaços, de abrir os olhos ao mundo imbuído de novos conhecimentos académicos e vivenciais. Talvez durante os dois primeiros anos tenha vivido Lisboa, e todas as suas ofertas boémias, culturais, relacionais, etc., de uma forma muito intensa. Depois de 19 anos de idade, e de Beja, e olhando a esta distância, imagino que sentisse essa necessidade de afastamento naquele momento concreto. E o afastamento tem sempre um lado bom. Que é o do reencontro. Sem afastamento não nos toca a saudade, não sentimos as nossas faltas, sejam elas afectivas, ou meramente olfactivas ou visuais. Quem pode esquecer a silhueta do mais belo Castelo do mundo? Ou o perfume de uma tarde de Primavera? E foi rigorosamente isso que aconteceu. Soube-me tão bem esse afastamento quanto o prazer que me deu a reaproximação à minha cidade. Apesar de continuar a viver em Lisboa mantenho o coração irremediavelmente refém da minha cidade de Beja.


Todas as pessoas têm conhecimento que o Bruno é um dos fundadores e mentores do Movimento Bejamerece+, criado há alguns anos, na defesa das acessibilidades a Beja. Neste momento o Movimento ganhou novo fôlego, está mais dinâmico e tem maior visibilidade, preocupando-se agora com outros aspectos que não são já apenas o comboio e a auto-estrada. Considera que a globalidade dos temas, actualmente defendidos pelo movimento, poderá só por si ter suficiente força reivindicativa junto do poder?

Permita-me uma correcção: não estive no início do Movimento Beja Merece. Este movimento surgiu em 2011, encabeçado por várias pessoas de Beja, bastante activas na luta pelo comboio e pela linha ferroviária do Alentejo. Estamos a falar de gente como o professor Florival Baiôa, o António José Barahona, o José Filipe Murteira, ou o Jorge Serafim. Nesse período apenas colaborei em acções pontuais como, por exemplo, o espectáculo no Pax Julia.

Não sei dizer ao certo quando, ou como me tornei mais pró-activo dentro do Movimento. Creio que terá sido no fim de 2016. Apaixonei-me pela causa e aproximei-me das pessoas mais activas, neste caso do Florival Baiôa por quem nutro uma estima, amizade, e admiração incomensuráveis. Nesse início de vida o Movimento esteve bastante activo, juntando uma significativa fatia da população de Beja. Depois, como quase todas as coisas de uma forma geral, e os movimentos de cidadãos em particular, houve um período de acalmia, sobretudo depois da Petição Pública experimentada nessa altura não ter obtido os resultados desejados na Casa da Democracia. Mas a semente continuou no espírito das gentes até porque, infelizmente, cada vez foram surgindo mais motivos para que as pessoas se indignassem, se revoltassem e quisessem arregaçar as mangas e participar, de forma livre, numa luta independente por uma Beja e um Baixo Alentejo diferentes, com qualidade de vida e justamente mais desenvolvidos. E por isso o Movimento renasceu. As pessoas voltaram a juntar-se, e a essas outras mais. Como que para marcar este seu segundo fôlego, ao Movimento Beja Merece foi acrescentado um Mais (+), em 2017.

Paralelamente as causas evoluíram para todo o Baixo Alentejo e saltaram dos carris do comboio para o asfalto das estradas, as asas do Aeroporto e a saúde do Hospital. Isto tornou o Movimento mais robusto, com maior amplitude quer de interesses, quer na sua geografia. Actualmente há muita gente a trabalhar com o Movimento. Paradigmática foi a Reunião Magna levada a cabo no Teatro Pax Julia, em Beja, no fim de 2017, que juntou quase seis centenas de pessoas de todos os quadrantes políticos, ideológicos e proveniências sociais. Fazendo do BMM um caso modelo a nível nacional. Em votação esteve uma decisão à partida polémica, mas que acabou por ter uma votação expressiva: o Movimento de Cidadãos não iria ser transformado numa Associação, com personalidade jurídica e estatutos formais. O BMM permanece da forma mais genuína possível, não organizada, (o que também não implica ser desorganizado), e suprapartidário, ou seja, colocando-se acima dos partidos políticos, mas contando com a intervenção destes na defesa conjunta de objectivos comuns. De notar que mesmo os que estiveram contra a moção vencedora nunca deixaram de colaborar ou apoiar o Movimento.

Relativamente às razões de pedir que consubstanciaram a Petição Beja Merece Mais, que está agora na sua fase de recolha, teremos primeiramente de aguardar pela contagem de assinaturas. Que terá tido uma participação massiva é já uma certeza. Centenas de pessoas mobilizaram-se pelo Baixo Alentejo, mas também pelo Algarve, Lisboa, Ribatejo, Margem Sul, Norte do País, e em várias comunidades de emigrantes, com o fim de divulgar e partilhar a petição, ajudando de todas as formas na recolha de assinaturas.

Resta agora saber se o desiderato das 20.000 assinaturas foi alcançado. Se assim for abrem-se portas novas e caminhos ainda não trilhados. E daí poderá surgir o sucesso. Com mais de 20.000 assinantes, a petição passa a poder ser acompanhada de propostas de recomendação ao governo - projectos de resolução - no mesmo sentido das que a petição avançou. Os projectos de resolução podem ser apresentados por um ou mais partidos, que poderão agendá-los para a mesma data do debate da petição no plenário da AR. No caso de não alcançarmos as 20.000 assinaturas será, sempre, uma petição com um resultado robusto. Mas que que se arrisca a não produzir os efeitos esperados. Contudo, e em caso afirmativo, segue-se uma interessante negociação política com todos os partidos representados na AR. Nesse momento saberemos quem está, e quem não está, com o Baixo Alentejo. E que partidos têm o interesse de reabilitar definitivamente toda uma região carenciada e abandonada. Mas ainda falta algum tempo até termos todas essas respostas.


O Baixo-Alentejo está em transformação e constitui, hoje, uma região de oportunidade para investir, quer ao nível do sector agro-alimentar, quer das indústrias daí decorrentes, do turismo e, mais recentemente, da aeronáutica. Face a este potencial de desenvolvimento, com um interesse crescente por parte de investidores privados, que reflexão faz em relação a dois momentos: o hoje, e o futuro?

Nestas matérias sou doentiamente optimista. Desta forma não consigo acreditar que na Cidade, Concelho e Distrito de Beja, e no Baixo Alentejo, o amanhã não seja melhor do que o hoje. Em bom rigor podemos notar que tudo o que já foi feito, bem como o que está a ser levado a cabo noutras paragens, regiões e distritos nacionais, quase nem começou, ainda, em Beja e no Baixo Alentejo. Apesar de isso, só por si, ser altamente injusto, por outro lado, significa que as oportunidades estão ainda quase intactas. Basta reverter as carências em ensejos, as faltas em oportunidades, o abandono em investimento. Para o crescimento sustentado de uma comunidade que fica distante dos grandes centros de decisão, como é Beja e o Baixo Alentejo, é necessário que o investimento seja equilibrado entre o que é público e o que provém da iniciativa privada. E, neste momento, precisamos com urgência de investimentos de ambas as proveniências.

Veja-se a saúde, por exemplo: o Estado tem o dever de proteger os cidadãos nesta matéria, oferecendo-lhes o direito à saúde. Existe - ainda que depauperado - mas existe um Serviço Nacional de Saúde. Existe uma rede de hospitais (desde há tempos dividida em regiões e sub-regiões de saúde, numa espécie de decalque de um mapa de regiões já rejeitado pelo País, mas já lá vamos), munidos de cuidados integrados de saúde, nomeadamente a promoção e vigilância, a prevenção da doença, o diagnóstico e tratamento dos doentes e a reabilitação médica e social.

Pergunto se esta teia de serviços existe e funciona no Hospital e Beja, ou nos demais do Baixo Alentejo. Não. Desta forma o Estado está em falta. O que não quer dizer que em Beja não devêssemos, ou pudéssemos ter um hospital privado. Não com o objectivo de prestar o serviço que o Estado não presta, só de per si. Até porque a saúde, enquanto sector, não pode ser privada, logo paga, em Portugal. Mas no caso específico de Beja, uma saúde privada pode e deve servir de alternativa, e só alternativa, para quem tem condições económicas para a poder pagar; para os titulares de seguros que podem alternar idas ao público com o privado, sendo que acabaria por colmatar inúmeras falhas, ao mesmo tempo que libertava espaço de atendimento no serviço público. E que traria para Beja mais quadros de saúde, médicos e enfermeiros, abriria vagas de trabalho em inúmeros sectores, como secretariado, segurança, construção/manutenção, serviços, fazendo funcionar a economia e oferecendo maior bem-estar e segurança à região. Sem esquecer que também o turismo se faz, cada vez mais, em função da existência de serviços de saúde consistentes e próximos. Já para não falar de sectores como a indústria, que envolvem muitas vezes riscos para a saúde que podem ser minorados com serviços de qualidade de proximidade. Mas atenção: nunca como substituição das obrigações do Estado.

No que toca ao sector agro-alimentar e industrial, é vital que também aqui a iniciativa privada se instale na região, criando riqueza, postos de trabalho, pagando impostos e dando corpo e poder a um sector que está, nesta fase, quase moribundo. Já existem alguns exemplos, como a Fair Fruit, entre outros, que são falados há anos. Contudo se nos pusermos do lado destes investidores constatamos que para um interessado se instalar em Beja, ou na generalidade do Baixo Alentejo, faltam, ainda, um conjunto de infra-estruturas básicas como sejam as vias de comunicação. Se eu abro uma fábrica em Beja, que processe polpa de fruta ou compotas, por exemplo, terei de ter condições de transporte que assegurem que uma frota de pesados possa trazer matéria-prima, ou outros bens, e levar a produção da fábrica seja para onde for. Mas como é isso possível sem comboio, sem estradas, sem IP, sem Auto-estrada, ou mesmo sem a valência aeroportuária, neste caso como interposto de cargas e descargas, ou seja, importações/exportações?

Como é possível captar investimento industrial, agro-alimentar, ou até tão só agrícola, se Beja é, neste momento, a única capital de distrito que não é servida por uma via com, pelo menos, características físicas de Itinerário Principal? Se a obra mais recente e com algum significado efectuada no corredor do IP8 (que liga o litoral atlântico à fronteira com Espanha) no distrito de Beja foi feita há cerca de 30 anos? Se na maior parte da sua extensão a via não possui sequer bermas pavimentadas, nem as larguras definidas na legislação para Itinerários Principais?

O facto de, nesta estrada - que de acordo com vários projectos e anúncios governamentais, deveria já ser a auto-estrada A-26 - circular em simultâneo tráfego agrícola significativo, elevada quantidade de tráfego de pesados de mercadorias, e o tráfego tradicional, faz com que apresente uma degradação galopante oferecendo condições altamente deficientes do ponto de vista do conforto, mas sobretudo da segurança rodoviária.

É preciso compreender que só um tecido empresarial e industrial forte terá peso e voz na exigência das infra-estruturas necessárias, e que continuam em falta no Baixo Alentejo. O sector, e tal como se encontra nos últimos anos, não consegue ter expressão suficiente para reivindicar ao Estado essas contrapartidas pela economia que gera, os empregos que cria, e os impostos que paga. Por outro lado faltam pessoas à região para levar a cabo essas mesmas reivindicações. E se o Estado não é pressionado a agir, as condições necessárias à instalação de novos projectos industriais, agrícolas e empresariais não vão acontecer. E as pessoas continuarão a partir, em busca de melhores condições de vida noutros lados. É uma relação causa-efeito que é preciso inverter e por a funcionar.

E, justamente por estas razões, podemos aqui juntar o factor do turismo, ou mesmo da tão falada criação de um Cluster Aeronáutico. Nem uma nem outra solução podem existir sem vias de comunicação. Se bem que ambas, maioritariamente, de investimento privado, ao Estado compete apenas criar condições para as deixar nascer e crescer. Tudo o que seja contrário a isto não serve para a região. E não servindo para a região, por maioria de razão, não serve ao País.

Mas estamos a tempo. Ainda é possível aproveitar o clima favorável de um certo optimismo e algum crescimento, para que o Estado cumpra o seu papel e passe a olhar para o Baixo Alentejo como uma região por explorar em variadíssimos sentidos, como económicos, sociais ou culturais. Para isso, apenas, a coisa pública, não deve estancar o investimento. Deve impulsionar, ajudar e cumprir com o seu papel democrático de justo facilitador. Eu, pelo menos, penso assim. O que não é sinónimo do Baixo Alentejo deixar de gerir a sua agenda setting a sua comunicação aos alvos certos, de acordo com as suas necessidades, no sentido que mais lhe convém, fazendo cumprir os seus objectivos. Digo isto porque, mesmo em termos de Turismo, a promoção do Baixo Alentejo não deve estar encaixada numa amálgama de regiões de turismo, o que impossibilita uma estratégia de comunicação clara, objectiva e criativa em torno da oferta real e exclusiva do Baixo Alentejo. Seria chegado o momento de investir numa comunicação independente de uma região Única. Com identidade própria. E de valor incalculável. Uma marca que é preciso assumir, promover e valorizar. O Baixo Alentejo é um diamante em bruto.


Beja é uma cidade com um património material e imaterial incrível, de onde são oriundos imensos talentos, seja na sua área, na música, na moda, na comunicação, na gastronomia, na gestão, etc. Considera que esse património com o qual crescemos poderá ter influência no percurso destes talentos? Beja será um pólo a explorar pela criatividade, já que oferece uma alma única, paz, tranquilidade e paisagens inspiradoras?

Sem dúvida. Beja tem uma identidade muito própria, uma alma que desde sempre tem sido geradora de inúmeros artistas em tantas áreas (e aqui vou poupar-me a enunciá-los, uma vez que somos muitos e poderia esquecer-me de algum). Existe um sonho que partilho com alguns amigos de Beja, e que era ver nascer na cidade uma “fábrica” de artes. Que pudesse acolher todas as manifestações artísticas. Não só aquelas que já são Património da Humanidade, ou as outras mais conhecidas, mas todas as demais. Uma escola de referência que trouxesse gente de outros países, que fosse um modelo internacional, e que levasse o nome de Beja pelo mundo fora como exemplo e forma de inspiração. Isso poderia tornar-se realidade, por exemplo, na antiga Fábrica de Moagem de Beja, perto do Parque Industrial, e que agora, com a requalificação da Rua da Lavoura, foi aproximada da cidade. Um descomunalmente elegante edifício industrial do séc. XIX, com o típico charme vintage, e a pedir desesperadamente que não o deixem cair por terra. Ou ainda na antiga Metalúrgica Bejense. Património arquitectónico e social que merece ser posto salvo e valorizado.

Sobre o edificado histórico, sabemos bem a riqueza do património material existente na cidade e concelho, desde os confins dos tempos. Uma chamada de atenção para os espólios arqueológicos de estruturas sociais milenares, que se encontram sob os barros de Beja, e que têm vindo a ser dizimados por proprietários de terrenos agrícolas, sem haver até ao momento nenhuma sanção exemplar pelos vários crimes de lesa-pátria que têm vindo a ser perpetrados. Mas bom seria, também, que se não deixassem morrer projectos arqueológicos de valor patrimonial único, como o Templo Romano, ou a Casa da Moeda, ambos na rua com o mesmo nome, no coração da cidade, e se continuasse a apostar noutros. Se existe dinheiro bem empregue é nesta forma de investir. Que valoriza a cidade, ao invés das tantas vezes preferidas obras de fachada. Só assim, mais tarde, Beja se pode afirmar como destino de um turismo cultural, informado e com poder de compra. Com vários pólos museológicos e monumentais espalhados pela cidade, um novo tipo de comércio, impulsionado por uma nova fórmula de turismo, poderia florescer. Bom seria, ainda, que de uma vez por todas, o património religioso e monumental da cidade pudesse ser visitado por turistas nacionais e estrangeiros, mas também por Baixo-alentejanos, sem se esbarrar com o nariz em portas invariavelmente fechadas. Se trancamos a riqueza dentro de quatro paredes e isolada dos nossos olhos, do nosso espírito, ficamos todos mais pobres. Porque não aprendemos com ela, não nos deixamos inspirar, não registamos nem partilhamos essa riqueza e não alimentamos o espírito. E gente pobre de espírito é gente que se torna perigosa. Porque alheia e desinteressada. Logo desistente e descrédula.


Falando de descentralização e regionalização, temas quentes no momento, será o Baixo Alentejo um território com condições para fazer face a essa regionalização?

Sim. Definitiva e obrigatoriamente. A propósito deste tema, elogio a ideia do deputado socialista eleito por Beja, Pedro do Carmo, de unificar a CIMBAL -Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo e a CIMAL - Comunidade Intermunicipal do Alentejo Litoral. A ver vamos se, de acordo com o mesmo, a questão irá ser "colocada brevemente em cima da mesa". O Baixo Alentejo só teria a ganhar com essa unificação. Apenas pelo facto de o Baixo Alentejo ser uma região com uma identidade própria. E de o Alentejo Litoral ser historicamente parte desta região até um dia ter sido alvo de uma disruptiva e contranatura divisão, ou subdivisão administrativa de um Alentejo cuja identidade tem vindo a ser espartilhada, dividida, e mutilada. No meu entender existem tão só dois Alentejos: o Alto e o Baixo. Tudo o mais não tem passado de um conjunto de experiências administrativas completamente inócuas que apenas tiveram como resultado desunir as duas regiões alentejanas e distorcer a sua identidade. Senão veja-se como é hoje, administrativamente, definido o Baixo Alentejo: sub-região estatística (NUTS III) de Portugal. Nem na nomenclatura existe dignidade.

Apesar de não ter dúvidas de que, por variadíssimas razões, o Baixo Alentejo tem todas as condições para se afirmar como uma região administrativa num futuro mapa nacional de regiões, não sou um defensor acérrimo da regionalização. Aliás, votei contra ambas as questões propostas no referendo sobre a Regionalização que este Novembro assinala vinte anos. Neste âmbito posso bem mais afirmar que me considero um “distritalista”. Sou partidário da descentralização por distritos. É um tipo de organização administrativa mais justa e democrática, com enraizamento histórico e percepção social, e que permite a continuidade de investimento em cidades de média dimensão, ao invés de, como tem acontecido, se apostar cirurgicamente em cinco cidades nacionais, relegando todas as restantes para mera paisagem árida. Desta forma nunca se conseguirá combater a litoralização do País e o despovoamento do interior. O País é constituído pela diversidade. Não podemos ter uma aldeia abandonada como opção a viver numa dessas cinco cidades altamente desenvolvidas. E quem não perceber que é esse o rumo que esta organização administrativa está a levar, então não está a olhar para o País com olhos de ver. Só com a atribuição de mais poderes, competências, e capacidade orçamental, as cidades - sejam elas sedes de Distrito, de Concelho, ou de Freguesia - podem desenvolver-se pelo seu mérito, pelos seus recursos, e pelo empenho das suas gentes. Tudo o resto é falsificar a palpitação do interior Nacional.

Contudo, e apesar do chumbo categórico conferido pelo País à regionalização administrativa, tal como esta foi proposta, a política seguida pelos vários governos tem sido justamente a contrária. Sem haver ninguém que grite bem alto que esse caminho não é consentâneo com a vontade manifestada pelos portugueses em sede própria. E Beja e o Baixo Alentejo têm sido vítimas centrais dessa política de desmantelamento territorial que urge travar e reverter.

Para se ter a percepção do contexto do Baixo Alentejo no todo nacional, é necessário conhecer alguns valores em termos demográficos, geográficos e de produtividade. Em termos absolutos, o AA (Alto Alentejo + Alentejo Central) conta com 13.623 km², ao passo que o BA (Baixo Alentejo + Alentejo Litoral) integra uma área de 13.814 km². Equivalem-se, portanto, em dimensão territorial, as duas regiões alentejanas. No que concerne à população, o BA conta 227.587 habitantes (censos de 2011), tendo o AA outros 285.058. Estes cerca de 50.000 habitantes de diferença são já o reflexo das políticas dos últimos anos, que têm afastado as populações do Baixo Alentejo, obrigado a elevadas taxas de migração e emigração, ao passo que os investimentos verificados no Alto Alentejo têm resultado na capacidade de atracção e retenção populacional nessa região.

Contudo, segundo o jornal de Negócios, e de acordo com um estudo levado a cabo há menos de um ano e meio, “o Alentejo Litoral é a região portuguesa com o nível mais elevado de produtividade do País, tendo ultrapassado Lisboa em 2014.” Os motivos estarão relacionados com desenvolvimento do complexo portuário de Sines e, em especial, da refinaria. Os dados foram revelados pelo Instituto Nacional de Estatística, sendo o factor produtividade calculado através da relação entre o PIB e o emprego. Ainda de acordo com o mesmo jornal, constata-se que o Baixo Alentejo é a terceira região mais produtiva do País, logo depois de Lisboa, com 109,5% ou seja, bem acima do todo nacional, enquanto o AA (Alto Alentejano e o Alentejo Central) se situam a meio da tabela com 92,3%, portanto abaixo do todo nacional. Desta forma facilmente se constata que um Baixo Alentejo “unificado” tem todas as condições para ser uma Região Administrativa, caso o País opte por este caminho. A região manter-se-ia à frente da de Lisboa, em termos de produtividade, sendo a líder de todo o País, atraindo a si quer mais investimento privado, quer mais atenção por parte do investimento público.


Supondo que a instalação de algumas empresas determinantes para o desenvolvimento da região dependia do seu parecer, quais seriam as mais-valias por si enunciadas para a fixação dessas empesas em Beja?

Quando eu era adolescente existia um jogo de computador muito famoso, e de que gostava muito, chamado Simcity. Era um jogo de simulação, no qual o jogador construía e administrava uma cidade. E que características eram precisas para fazer crescer sustentadamente a cidade? Pois bem, na prática as mesmas que, hoje em dia, são necessárias para fazer crescer uma cidade verdadeira: cuidados de saúde, meios de protecção civil, casas e prédios onde as pessoas possam viver, infantários, escolas e universidades, estradas, comboios, aeroporto, fábricas, lojas e instituições bancárias, hotéis, jardins e zonas verdes, espaços desportivos… enfim. O jogador que conseguisse este sistema básico de funcionamento conseguia fazer da sua cidade uma comunidade exemplar com toda uma estrutura funcionante, segura, confortável e auto-suficiente para os seus habitantes. O sucesso do jogo devia-se a essa relação estreita com a realidade.

Em bom rigor Beja precisa dessas características, dessas mais-valias, para se afirmar como uma cidade inteira. Se existir indústria aumentam os postos de trabalho, diminui o desemprego e surgem oportunidades de trabalho, primeiro para os residentes, e mais tarde para gente de fora, o que enriquecerá o seu tecido social, que comprará no seu comércio tornando-o mais robusto, que terá filhos a estudar nas suas escolas, que pagará mais impostos à cidade, que poderão ser utilizados para levar a cabo investimentos que gerem qualidade de vida e a atracção de mais gente, incluindo turistas, o que obriga a que o parque hoteleiro cresça e atraia mais turistas que aqui gastarão dinheiro e levarão, pela palavra, o nome da cidade ainda mais longe. A propósito diga-se que a oferta de camas em Beja é imensamente escassa para as necessidades. A taxa hoteleira da cidade  do concelho cifra-se perto dos 80% anuais. Ou seja, juntando épocas alta e baixa. O que prova que existe falta de oferta hoteleira. No passado mês de Março, a cidade recebeu a WorldSkills Portugal, o Campeonato Nacional das Profissões, que contou com 400 jovens altamente qualificados, transformando a cidade numa plataforma de competências. Toda esta gente foi dormir a Évora, por falta de oferta hoteleira na cidade.

Beja precisa de saber dar resposta a todos quantos nela se queiram fixar. Seja que sector de actividade for. Mais até do que esperar por receber propostas, seria útil a criação de uma “embaixada móvel”, e fora da cidade, que se antecipasse e chegasse aos potenciais interessados antes mesmo destes pensarem em Beja. Isto implica estudos de tendências de mercado empresariais e industriais. Há empresas que se dedicam exclusivamente a trabalhar nesta área. Chama-se “pensar à frente”. Chegar primeiro. É caro? Demora tempo? Seguramente que sim. Mas é um investimento que pode ser fundamental. Veja-se o exemplo do alto desenvolvimento turístico que Portugal vive desde há uns anos a esta parte. Não foi por acaso, nem tão pouco se ficou a dever a uma conjuntura externa mais favorável. Como alguém disse, houve gente que trabalhou muito bem, e durante muito tempo, para se chegar a este ponto de franco sucesso. E isso pode, e deve, ser um exemplo.


O Baixo-Alentejo vale a pena! – Quer comentar esta frase?

Vale. Vale muito. Pelas pessoas que tem. Pelas gentes que testemunharam um Portugal duro, austero e sem oportunidades, anterior a 74. Que quiseram acreditar que tudo iria mudar para melhor, mas cujas esperanças foram sendo goradas ano após ano, década após década. Toda esta gente, mais idosa, contribuiu com quase tudo o que tinha, e muitos pouco mais do que o seu trabalho braçal, a sua resiliência, de sol a sol, para o bem do País. Esse mesmo País não lhes pode virar costas. Nem a esses, mais velhos, nem aos seus filhos, muitos deles emigrados fora das nossas fronteiras, senão as do País, as do seu distrito. E tantos querem um dia poder regressar. Com os filhos que apenas já muito ao longe sabem que os pais, ou os avós, eram Baixo Alentejanos.

Por todas essas gerações deprimidas que tiveram de partir, ou não tendo sequer essa oportunidade não lhes restou senão ficar e esperar o que começa a fazer-se demasiado tardio. As oportunidades, os direitos, que justamente os restantes portugueses já experimentaram, ou começam a experimentar. Beja e o Baixo Alentejo não podem baixar os braços. Temos de lutar, unidos, independentemente de convicções pessoais e políticas, porque este é um desígnio demasiado forte. Sob pena de perdermos o berço e o lar das nossas famílias e da nossa história.

O Estado tem de terminar a A-26. Tem de requalificar o IP8. Mas também tem de olhar para todo o interior do Baixo Alentejo. Não basta dizer que se cumpriu Alqueva. Esse mesmo empreendimento foi projectado como uma das laterais de um tal “triângulo estratégico”, que compreendia ainda o Aeroporto de Beja e o Porto de Sines. Tudo isso tem sido desfeito. Sines cada vez mais desviada para norte, o Aeroporto apenas a muito custo, e com grande intervenção do Movimento BMM, começa agora a acordar da letargia.

O Hospital de Beja, mas o de Serpa, e o de Santiago do Cacém, e as demais unidades locais de Saúde espalhadas pela região não podem, pura e simplesmente, desaparecer para que, com esse desinvestimento se venha a financiar um mega hospital em Évora. Que está apenas a uma hora de Lisboa. Isto representa a total distorção geográfica do mapa nacional. A grande Lisboa conta com largo número de hospitais de grande porte em toda a sua periferia. Construir o mega hospital de Évora é redundar investimento do erário público. 120 milhões. E ao mesmo tempo significa desistir de Beja, Serpa, Sines, Portalegre, bem como do restante interior. Vai secar tudo à sua volta. Isso mesmo defendeu até à exaustão o anterior Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva.

A linha electrificada é necessária de Beja a Lisboa, de forma directa. Mas também de Beja para a Funcheira. O comboio é um meio de transporte de futuro. Não poluente, rápido, seguro, fiável e confortável. A população está cansada das mentiras do Ministro do Planeamento e Infra-estruturas. Primeiro disse que haveria um investimento em material circulante bi-modal. Depois veio dizer que não seria para já. E finalmente afirmou que nem em 2030. E porquê? Porque se as políticas se mantiverem no caminho que está a ser seguido já não haverá na região gente com capacidade de luta em 2030. E assim poderá fechar-se a linha de forma mais descansada e com menos polémicas. E depois, o vazio. Mas uma coisa é certa: o Movimento BBM não vai parar a luta por Beja e pelo Baixo Alentejo. Venha quem vier, demore o tempo que demorar, juntos vamos conseguir! Beja Merece Mais! O Baixo Alentejo Merece Mais!

 

 

 

"Quando nos recusamos a tomar decisões comuns, alguém as tomará por nós"

João Espinho

Blogger | Praça da República

João Espinho é autor e editor do Blog Praça da República, um blog independente, que se debruça, entre outros, sobre assuntos do Concelho de Beja e da Região, um espaço aberto, de debate, de partilha de pontos de vista, onde se comenta livre e moderadamente o que vai acontecendo. É nesta qualidade que convidamos João Ferraz Espinho a fazer parte deste espaço de reflexão intitulado “Alentejo, um amanhã reinventado”.

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Urge fazer uma revolução de mentalidades. E para isso, não há executivo, municipal ou outro, que nos acuda. Somos nós, bejenses, que temos que mudar. Amanhã já será tarde.




Na sua opinião o que falta acontecer no Alentejo e no distrito de Beja, em particular, para vivermos o tão almejado progresso económico e social?

Em primeiro lugar, parece-me que estão por cumprir as promessas que, ao longo de décadas, nos têm sido, sucessivamente, apresentadas pelos governantes, quer da cidade quer do país. Desde que há eleições democráticas, tudo o que é de bom nos tem sido prometido para alcançarmos o desejado desenvolvimento. Como se pode constatar, não passam de promessas eleitorais que, na hora das decisões, são metidas nas gavetas ministeriais e esquecidas até ao seguinte acto eleitoral.

 

Enquanto cidadão, quais são para si os motivos que conduziram à estagnação da região e ao consequente desânimo por parte de muitos dos seus habitantes?

No seguimento do que disse anteriormente, são também os cidadãos que “deixam” que nada aconteça. Somos pouco interventivos e, muitas vezes, deixamo-nos embalar pelas conversas daqueles que dizem querer representar-nos. Não temos sabido criar sinergias e juntarmo-nos para lutar pelos interesses da região. A divisão das pessoas está enraizada e dela jamais se colherão frutos. A política está mal vista e é encarada por muitos cidadãos como uma maleita da qual se devem afastar. É sabido que, quando nos recusamos a tomar decisões comuns, alguém as tomará por nós.

 

 

Por vezes a força de lobby e interventiva junto do poder central e de grupos económicos, pode fazer toda a diferença no desenvolvimento das regiões. O que se diz na sua “Praça” a este respeito?

O Alentejo foi vítima, após o PREC e a Reforma Agrária, de feridas profundas que teimam em não sarar e muito menos em ser esquecidas. Há uma enorme clivagem, transversal a toda a sociedade alentejana, decorrente das lutas travadas após o 25 de Abril. O exagero de algumas reivindicações, a ocupação e posterior devolução de terras e imóveis, criaram um enorme fosso entre vários grupos de cidadãos e que tem acompanhado várias gerações. São, como disse, feridas profundas que, talvez, tendam a sarar nas próximas gerações. Ora, uma sociedade dividida, não tem força e perde capacidade para fazer lobby. Daí que, onde essa clivagem não seja tão evidente, os cidadãos tendam a unir esforços e a saber como fazer pressão sobre os decisores governamentais.

 

 

Sendo que o investimento público é sempre determinante no desenvolvimento, considera que a região de Beja poderá alavancar um futuro com base em investimento privado, em áreas específicas?

Beja e a região têm vivido, eternamente, à espera dos milhões de euros vindos dos cofres do estado, como se tal fosse a salvação para o evidente definhamento do interior sul do Alentejo. Como mais adiante tentarei explicar, o investimento público é de primordial importância, mas não podemos estar à espera que o Estado venha aqui depositar os ovos doirados, pois a distribuição dos dinheiros públicos deve assentar numa visão global do território e não pode servir para criar mais assimetrias. Daí que o investimento privado é crucial para que se possa desenvolver a região. Diria mesmo: Não sairemos do marasmo sem empresas privadas dinâmicas que, emparelhadas com o investimento público, possam, realmente, servir de trampolim para o desejado desenvolvimento.

 

 

No distrito de Beja assiste-se a um aumento do número de empresários dinâmicos e empreendores. Considera que o caminho percorrido até agora é suficiente,  ou será que  neste campo também temos ainda muito caminho a percorrer?

Ser empresário no distrito de Beja, ou em qualquer outro distrito do país, é, sem dúvidas, uma tarefa enorme e desgastante de energias. Existem labirintos incontornáveis que, por um lado, impedem que alguém se arrisque a pôr de pé um projecto empresarial e, por outro, vão sugando dinheiros que poderiam ser utilizados na criação de empresas. Ouça-se qualquer empreendedor para se perceber como a teia burocrática é desanimadora, levando muitos a virar costas e a procurar outras paragens onde, cumprindo as exigências legais, os “compadrios” não asfixiam os desígnios de criar novas empresas.

 

 

Instalou-se a ideia de que o desenvolvimento da região está dependente, sobretudo, da melhoria das acessibilidades rodoviárias e ferroviárias. Na sua opinião e no geral da sua “Praça da República” será só isto que está a travar o crescimento?

As acessibilidades são essenciais. Uma boa rede de estradas e uma ferrovia electrificada, são exigências que não podemos, de forma alguma, descurar. A luta por melhores estradas e comboios deve ser diária e temos que reinventar essas formas de luta. A cidade de Beja tem vindo, ao longo dos tempos, a perder massa crítica, gente que tenha novas ideias e sugira novos procedimentos reivindicativos. O movimento Beja merece+ tem as suas virtudes mas padece de uma apatia e inércia, muito características dos bejenses. Sendo um movimento que vive de forma pouco organizada, está sujeito aos sabores do tempo e dos impulsos temporários de alguns cidadãos. O movimento bate-se por melhores acessibilidades e pela efectiva rentabilização do chamado aeroporto de Beja. São, indiscutivelmente, objectivos primordiais, mas não lhe reconheço, até ao momento, qualquer peso negocial ou mesmo capacidade para ser lobista.

 

 

Viveu algum tempo fora de Portugal, embora num país comunitário, olhando para outras realidades. Que reflexão faz relativamente ao que a região tem para oferecer aos  potenciais investidores, portugueses ou não, que possam ajudar no crescimento e desenvolvimento de uma zona do país, que aparentemente tem tudo, mas onde o tempo tem teimado em ficar quase parado?

Durante os 4 anos que vivi na Alemanha, vinha regularmente a Portugal, e obviamente a Beja, e espantava-me o súbito enriquecimento das gentes e da quantidade de estradas (auto-estradas) que se construíam por todo o lado. Eram os tempos gloriosos dos fundos europeus que davam para comprar novos carros, novas habitações, casas de férias, etc…

Porém, a região não estava a beneficiar dessa “riqueza”, os investimentos para impulsionar economicamente o Alentejo eram quase inexistentes. Na Alemanha avisavam-me: com a entrada de Portugal na moeda única, o país não se vai aguentar e, mais tarde ou mais cedo, esse enriquecimento vai inverter-se, dando lugar a graves problemas financeiros. O resto da história já nós conhecemos. Em Beja gastaram-se milhões para esventrar a cidade, para a descaracterizar, foi o Pólis, e no fim, quem beneficiou com todas essas obras? Está à vista que não foi nem a cidade nem a região. Não se soube ter uma visão estratégica de longo prazo optando-se por obras de gosto duvidoso (Praça da República, Jardim do Bacalhau, Avenida Miguel Fernandes), esquecendo que à nossa volta há todo um mundo rural a necessitar reconversão. Simultaneamente, o Instituto Politécnico pareceu-me que foi perdendo dinâmica, mas continua a ser uma das principais, se não a principal, a par do Hospital, instituições do Distrito. Duas instituições que, a meu ver, têm sido muito maltratadas, quer pelos poderes quer pelos cidadãos.

 

 

Sendo a Praça da República de Beja o local, por excelência, das decisões relativas ao Concelho de Beja, já que é lá que se situa a Câmara Municipal, e sendo a “Praça da República” o blog mais exposto às condições regionais, que sugestão faria ao executivo Municipal e ao executivo Nacional, no sentido de conferirem ao Distrito de Beja as condições para um reinventar do Baixo-Alentejo, onde todas as condições que temos, possam de facto ser potenciadas?

O novo executivo camarário tem uma enorme tarefa à sua frente: inverter o caminho do isolamento, transformar o evidente definhamento numa nova centralidade, afirmando Beja como efectiva capital de Distrito. Deverá, em primeiro lugar, olhar para as pessoas, para os munícipes, sendo o seu representante junto de um poder central que teima em nos ignorar. O Baixo-Alentejo tem uma infinita riqueza, desaproveitada, ou mal direccionada, e é isso que tem de ser tido em conta pelos novos decisores que têm assento na praça da República. O Centro Histórico da cidade morreu e muito dificilmente ressuscitará sem pessoas. Têm que ser criadas condições para, por um lado, tornar o CH habitável e, por outro, mais favoráveis às empresas que aqui se querem instalar e investir. O definhado comércio local tem que se reinventar, pelo que a Câmara, com as ferramentas disponíveis, deverá auxiliar esses comerciantes a renovar os estabelecimentos, retirando-lhes encargos, permitindo-lhes investir nessa renovação. Mas, e termino aqui, urge fazer uma revolução de mentalidades. E para isso, não há executivo, municipal ou outro, que nos acuda. Somos nós, bejenses, que temos que mudar. Amanhã já será tarde.

 

"O potencial de desenvolvimento que a actividade cinegética pode trazer ao Baixo Alentejo é extradordinário"

O Alentejo é por excelência a região do país que mais atrai os amantes da caça. A sua regulamentação e a organização, daí decorrente, conduziu ao aparecimento de bastantes reservas de caça com uma gestão “profissionalizada” e dinâmica, que tem contribuído para um movimento crescente em direcção a sul, sobretudo nas épocas de “pico”.

Convidámos hoje, para fazer parte do nosso painel, alguém profundamente conhecedor do mundo cinegético e que, connosco, fará uma reflexão acerca do peso desta componente, num Alentejo que se quer no caminho do desenvolvimento. José Manuel Graça dedicou a maior parte da sua vida activa à Banca, tendo sempre, em paralelo, devotado uma grande dedicação ao mundo da caça, actividade que lhe ocupa hoje a maior parte do tempo.



 

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1 – A sua paixão pela actividade cinegética leva-o a ter um vasto conhecimento desse mundo, que não tem partidos políticos nem clubes de futebol. Pode caracterizar-nos a actividade da caça actualmente?

A caça divide-se em dois tipos – maior e menor. Da caça maior fazem parte essencialmente os cervídeos, cujas populações crescem significativamente, e os javalis, que em determinadas zonas registam igualmente  um crescimento considerável, até em territórios que não eram comuns no seu habitat. Nos locais onde outrora abundavam, têm vindo a ser substituídos pelos veados, sendo que, e fruto da minha observação e experiência de campo, considero que estas duas espécies têm dificuldade em coabitar.

No que respeita à caça menor, composta por exemplo por perdizes, pombos, tordos, rolas, coelhos e lebres, entre outros, enfrentam-se algumas dificuldades, directamente  relacionadas com o seu repovoamento e que passo a explicar: “fazer perdizes” no campo é neste momento, praticamente impossível. Porquê? Porque existem espécies que impedem o seu crescimento e desenvolvimento, tais como as raposas, os saca-rabos os ginetes, em terra, e mais recentemente, por via aérea, as cegonhas, as garças brancas, as pegas, os corvos e os rabilongos, aves que dizimam os ovos e os perdigotos, e que se reproduzem a uma velocidade tal, que poderão assumir a figura de praga. Quanto à rola comum, não será possível um aumento da espécie enquanto não for autorizado o abate da praga da rola turca, que não coabita com outras, para além dos seus tradicionais “inimigos” (pegas, corvos, rabilongos e águias). Ultimamente  verifica-se  um crescimento significativo de uma outra espécie “ameaçadora”, e protegida – o corvo marinho - que dizima as barragens e ribeiras e a sua fauna piscícola, protegida por muitos ambientalistas.



2 – Existem no Alentejo bastantes reservas de caça, com características diferentes, mas com um número crescente de “adeptos”, sobretudo oriundos de outras regiões. Considera tratar-se de uma actividade que tem em si o poder de potenciar um desenvolvimento turístico para o Baixo Alentejo, embora direccionado?

O potencial de desenvolvimento que a actividade cinegética pode trazer ao Baixo Alentejo é extradordinário. Como principais factores menciono o clima, o tipo de reservas de caça, a orografia dos terrenos, as infraestruturas criadas, e obviamente a característica arte de bem fazer e de bem receber na região.  No entanto, lutamos com algumas dificuldades que limitam uma aposta maior no turismo cinegético estrangeiro, e que passo a explicar: conhecendo as regras da caça na Europa, onde frequentemente caço em países como a Dinamarca, Inglaterra, Escócia, Irlanda a Espanha, e tendo conhecimento da dificuldade em transportar armas de caça por avião, existindo inclusivamente companhias aéreas que não permitem o seu transporte, considero extremamente difícil conseguirmos conquistar o caçador estrangeiro. Porquê? Porque a actual lei das armas afasta de imediato a vontade das empresas organizadoras de caçadas, em promover a sua realização no nosso país, por não existir a figura do esmpréstimo de armas. Por um lado, o custo das Licenças é superior a qualquer um dos países que mencionei (125 euros/ano ou 65 euros/mês). Mas nem é este o principal factor. É-o sim, o transporte das armas, que torna moroso o check-in (cerca de duas horas a mais), sendo que também os critérios diferem de país para país, e inerente orgânica policial, tornando os aspectos burocráticos extremamente complexos. Existe ainda uma componente financeira, pois todo o serviço de legalização no transporte de armas de caça é pago através de taxas várias, que diferem entre as companhias aéreas. Por outro lado, existe uma outra condicionante, que é a obrigatoriedade da utilização  do cadeado de gatilho. Em nenhum dos países onde caço é utilizado, e nem se compreende o porquê desta imposição, pois os acidentes de caça decorrentes do seu uso são muitos, e infelizmente, bastantes vezes, fatais. Basta que o caçador se esqueça que deixou no cano da arma um cartucho ou uma bala, e ao guardar a arma na bolsa, o cadeado prima o gatilho. A responsabilidade individual tem forçosamente que existir na prevenção dos acidentes ligados à caça, mas este “adereço”, usado apenas em Portugal, na minha opinião, não vem conferir  acréscimo à segurança,  estando provado que potencia esses mesmos acidentes.



3 – É uma pessoa viajada e conhecedora da actividade noutros países. Estabelece algum paralelo com algum ou alguns deles, ou pelo contrário, considera estarmos ainda num patamar bem distante?

A resposta a esta questão entronca na anterior. Estamos muito distantes de outros países, quer nas práticas, quer na legislação vigente. Posso dar como exemplo a Inglaterra e a Escócia, países que se debatem com problemas de terrorismo bastante maiores do que nós. Nestes países, as empresas que organizam caçadas para estrangeiros, podem alugar armas para essas mesmas caçadas, evitando o seu transporte, bastando para tal enviar o cartão europeu de uso e porte de arma, com um mês de antecedência relativamente à data da caçada, para que a Scotland Yard avalie se o caçador tem ou não cadastro, e dar a respectiva autorização.  Desta forma, o caçador, além de não ter que se deslocar com as suas armas, tem ainda à sua disposição 8 a 10 tipos de armas de caça diferentes.

 

4 – Na sua opinião, o que falta fazer, ainda, para que a actividade cinegética possa considerar-se uma fonte de receitas e que, de alguma forma, possa contribuír para o desenvolvimento da economia local?  

Em primeiro lugar, e decorrente das respostas anteriores, considero ter forçosamente que existir uma alteração da legislação vigente, agilizando aspectos fundamentais para a atractividade do caçador estrangeiro, mantendo, evidentemente as questões de prevenção do terrorismo. Muitas vezes as leis são feitas por quem apenas está sentado numa secretária, sem ter perfeito conhecimento da actividade e do terreno, e das regiões em particular.  O legislador, deve saber de leis, mas deve igualmente estar informado, conhecer, e pisar o terreno, já para não falar do diálogo e negociações com as entidades responsáveis ligadas ao mundo cinegético.

Por outro lado, todos sabemos da existência dos lobbys fundamentalistas, fortíssimos e anti-caça. Fazem uma grande divulgação dos seus princípios nas redes sociais sem conhecer o campo e a natureza. Por vezes tecem afirmações menos correctas. Lembro-me, por exemplo, e muito recentemente, de uma entrevista a um responsável da Quercus por ocasião do aniversário da Ponte Vasco da Gama, onde ao ser questionado acerca da duplicação da população de flamingos nos últimos 20 anos, na zona da ponte,  prontamente respondeu que se a ponte não existisse, não sabia se essa população não teria triplicado ou quadriplicado … (utilizando um pouco de ironia, seria preferível não existir ponte, mas sim uma praga de flamingos?!...)

Ainda no campo da protecção da natureza, refiro de novo o corvo marinho.  Esta ave pesca/caça de tal forma assertiva, que dificilmente alguma espécie menor lhe escapa. Sublinho que estão aqui incluídas as rãs, pardelhas, saramugos e bordalos, que são espécies piscícolas quase em extinção e muito protegidas pelos ambientalistas. Acresce que existem concentrações de corvos marinhos em número superior a vinte em pequenas barragens, que acabam por dizimar a fauna piscícola.  Há que proteger a natureza sim,  mas há que ter uma visão global, e não catalogar os verdadeiros caçadores como matadores, pois são o campo e a natureza que ficam prejudicados.


5 – Considera que a região de Beja e do Baixo-Alentejo, em geral, tem condições para que se pense na actividade cinegética directamente ligada a um turismo específico, que possa traduzir-se em investimento e desenvolvimento?

Como já atrás referi, considero a região de Beja com um excelente potencial de desenvolvimento turístico, pese embora as alterações necessárias. Se esse turismo existir, terá qualidade, cultura própria, e a seu tempo poderá interferir com novos investimentos e infraestruturas, nomeadamente por parte de investidores privados.

 

6 – Se lhe fossem conferidos cinco minutos num programa televisivo para  dar a conhecer a região e o seu potencial de investimento, quais seriam as suas principais preocupações?

Defendo o campo e o Alentejo com a paixão de quem vive e se dedica a tempo inteiro a esse mesmo campo.  Os factores para investir são sobretudo o clima, a localização, a possibilidade de desenvolver infraestruturas, a cultura e a vontade de fazer por parte dos residentes.  Se forem concedidas condições para adequar os projectos de investimento, seja qual for a área, à realidade socio-económica da região, não descurando nunca as suas características inatas, considero estarem reunidas as condições para qualquer investidor poder fixar-se.

 

 

 

"A Vontade não vem nas leis nem nos orçamentos, mas é quem move montanhas"

 

Beja insere-se numa região essencialmente agrícola, onde a implementação do projecto “Alqueva” veio trazer uma nova dinâmica e uma nova realidade aos campos e às explorações  agrícolas. Com a mudança de paradigma e de culturas, existiu a necessidade de adaptar os modelos de gestão, por um lado, e por outro sentiu-se a necessidade de uma crescente especialização e profissionalização, quer por parte dos empresários, quer por parte dos técnicos afectos a essas explorações. A agricultura/empresa é hoje uma realidade e os investimentos efectuados  têm forçosamente que estar em linha com os objectivos propostos. Formar empresários agrícolas de sucesso requer muita dedicação e profundo conhecimento em várias áreas.

 

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O nosso convidado de hoje é alguém que embora com formação e vasta experiência na área, não estagna e tem como princípio “andar um passo à frente”, por forma a conseguir imprimir as melhores práticas na exploração de que é gestor. Rui Veríssimo Baptista gere a Conqueiros Invest, uma exploração agro-pecuária familiar, com vários polos.

 

 

Ou se “provoca” o crescimento ou se deixa apenas o crescimento ao dinamismo do investimento privado.

 
Sem dúvida que Alqueva transformou muitas vidas e muitas explorações agrícolas. Na sua opinião, o Baixo-Alentejo é neste momento uma região onde se deve apostar fortemente em termos agrícolas? Porquê?

 

Em primeiro lugar importa precisar que o Alqueva abrange uma parte do Baixo Alentejo (BA). Há um outro BA, o não regado, maior em área que o regado. E este “outro” BA, por comparação com o beneficiado pelo Alqueva, é parte da resposta à pergunta.

A agricultura de regadio é sempre um motor de desenvolvimento dos territórios. Está a ser assim no Alqueva como foi assim noutras regiões onde o regadio chegou. A escala e modernidade do empreendimento do Alqueva veio dar uma dinâmica económica ao território distintiva, que muito dificilmente outro setor poderia proporcionar. Aliás, o passado assim o demonstra.  A Agricultura de regadio, pelo nível de investimento e especialização que está a atingir irá, naturalmente, proporcionar a instalação de novas indústrias, com o agroalimentar à cabeça, comportando-se assim como a locomotiva do desenvolvimento do BA. 

Contudo, há o outro BA, onde o investimento no setor agrícola é inevitável, porque a ocupação do território assim o exige, já que não há outro setor que lhe valha. Neste caso, o investimento terá naturalmente de ter uma filosofia diferente, e inevitavelmente alicerçado em políticas publicas. Porque se tratam de investimentos com retornos financeiros mais débeis e, portanto, de risco mais elevado, o investimento publico deverá ser desenhado com vista a promover rendimentos justos aos agricultores, assegurando desta forma a manutenção da atividade, e consequentemente, a sustentabilidade económica, social e ambiental destes territórios. As politicas publicas de apoio ao rendimento jogam aqui um papel fundamental.

Em suma a resposta é claramente sim.

Que paralelo estabelece entre o investimento privado efectuado nas imensas explorações que conhecemos e o potencial de desenvolvimento da região?

 

Cingindo-me à zona do Alqueva, entendo que este investimento é o paradigma do que deve ser o desenvolvimento de uma região e que define claramente o que significa investimento publico de qualidade. O estado investiu na criação de infraestruturas e os privados investem em consequência dessa infraestruturação. Ou seja, o bom investimento publico o que fez foi potenciar o potencial da região, tornando mais rentável, e por isso mais atrativo, o investimento privado. Neste caso, em particular, a água veio colmatar um dos grandes entraves à agricultura desta região de clima mediterrânico.

O Agricultor, como qualquer outro empresário, investe onde se sente seguro, o mesmo será dizer, onde veja rentabilidade financeira e risco controlado.  O Alqueva veio precisamente “fabricar” esta realidade.

 

Considera que o investimento público, em geral, é adequado ao crescimento agro-industrial que se verifica, ou existirá um longo caminho a percorrer até que estejam reunidas as condições para uma real e proporcional conjugação de valores investidos e a investir?

A Agroindústria é fundamental porque valoriza a cadeia agropecuária, sendo por isso uma grande mais valia para a região. A agroindústria significa mais investimento, RH mais qualificados, maior inovação, melhores empregos etc.. É uma consequência natural do desenvolvimento numa região agrícola. Havendo produção ela vai aparecer. Contudo o seu aparecimento poderá ser “provocado” mediante politicas públicas assertivas.

Estas politicas deverão ter um foco muito orientado, por exemplo, nas infraestruturas de transporte, para escoamento competitivo dos produtos (não esquecer que estamos na ponta da europa), na politica de formação, as empresas procuram mão de obra qualificada, e na politica fiscal, para promover, também por esta via, vantagem competitiva face a outras regiões, quer à escala regional, quer nacional, ou mesmo internacional.

Conforme referi, a agroindústria irá aparecer com maior intensidade, porque será inevitável, tendo em conta o investimento na produção a que estamos a assistir. Mas de facto, ela poderia neste momento existir já com uma expressão maior. Tenho a sensação de que pelo facto de se ter construído o Alqueva a administração central parece “sentir” que já cumpriu com a sua obrigação de investimento na região. Por exemplo, há manifestas deficiências nas infraestruturas de transporte, rodovia e ferrovia. Contudo, o governo quando instado sobre a falta de investimento na região, atira para cima da mesa os enormes números do Alqueva. Ou seja, há apenas um discurso contabilístico, não se encontrando uma lógica de planeamento integrado. Aliás, o discurso político enferma deste vício, falam-se de milhões e nunca se fala do resultado desses milhões. De facto, este tipo de discurso é sempre mais fácil,  adapta-se a qualquer realidade e facilita a comparação, porque são apenas euros. Se a minha ideia está confusa, pense-se, por exemplo,  no Aeroporto…

 

O crescimento e o desenvolvimento assentam, além da componente investimento, num capital importantíssimo: as pessoas.  Na sua opinião, quais os caminhos a seguir para conseguir fixar na região o capital humano, técnico ou não, indispensável ao funcionamento das empresas?

O desenvolvimento económico arrasta sempre consigo as pessoas. No caso do Alqueva é possível criar esse dinamismo económico porque está a acontecer sucesso por via do investimento público e privado. Deste ponto de vista as coisas estão a correr bem.

À semelhança das infraestruturas que referi na pergunta anterior, às entidades com influencia no desenvolvimento da região, restam duas opções, ou se “provoca” o crescimento ou se deixa apenas o crescimento ao dinamismo do investimento privado. O facto de Beja não ter provocado o investimento fez com que algumas regiões limítrofes tivessem assumido a dianteira nalguns investimentos estruturantes. A produção está a fazer o seu caminho, é importante instalar em maior escala a agroindústria, porque é um elemento fundamental de criação de valor na cadeia. As pessoas movem-se com a economia e a economia move-se por interesses.  A Camara Municipal poderá e deverá desempenhar um papel fundamental neste processo de captação de investimento porque tem ferramentas, como nenhuma outra entidade na região, como sejam, por exemplo, a fiscalidade e a política de licenciamentos, apenas para falar nas mais importantes.

 

O Rui imprimiu na sua exploração uma gestão de meios e de recursos rigorosa, com uma forte aposta na inovação, na tecnologia, na energia limpa, entre outras. Quer falar-nos um pouco dessa necessidade de transformação que sentiu e dos benefícios conquistados?

O mundo muda todos os dias e quem não se adapta não vinga. Hoje em dia, na agricultura como noutros setores, um líder é fundamentalmente um gestor da mudança. No meu caso particular, a mudança que estamos a operar nas nossas explorações teve a ver com o facto de o modelo de negócios tradicional que tínhamos implementado estar a perder rentabilidade, e isso despoletou a mudança que está a ocorrer, sempre de forma gradual e estruturada. Neste aspeto é muito importante saber distinguir o que é estrutural e conjuntural. A introdução da agricultura de precisão tem sido uma aposta decisiva na adaptação das nossas empresas.

A agricultura de precisão significa mais informação e desta forma decisões mais robustas. Sondas de rega, imagens de satélite, georreferenciação das operações, mapeamento das produções e dos solos, são algumas das ferramentas que apoiam a nossa agricultura de precisão. Através deles é possível melhorar a rentabilidade porque com os mesmos inputs podemos produzir mais porque os utilizamos melhor.

Por outro lado, é igualmente nosso objetivo tornar as nossas empresas com um balanço energético zero. É por isso que estamos a apostar fortemente na produção fotovoltaica.

Queremos a medio prazo ser uma empresa modelo na gestão dos recursos, mas para isso necessitamos renovar o nosso quadro de pessoal. Esta é uma tarefa lenta porque temos uma forte consciência social, e não utilizamos os despedimentos como ferramenta de gestão.

 

Na sua actividade, tal como em qualquer outra, um dos caminhos de quem quer progredir, assenta em parcerias. Estabeleceu já alguma parceria ou acordo de colaboração com entidades regionais que estejam abertas a esses novos modelos de investimento/crescimento? Considera que o futuro da agricultura especializada poderá passar por modelos de parceria?

Não conheço nenhum setor de sucesso, ou mesmo país, em que o seu modelo de desenvolvimento não assente em parcerias fortes. A parceria é a potenciação do conhecimento de cada um e é promotora de confiança. Já hoje, nas minhas empresas, temos parcerias, em especial com os nossos fornecedores de referência. Igualmente, desenvolvemos projetos de investigação com empresas e instituições de ciência no âmbito de programas de financiamento comunitário. Mas reconheço que há um algum caminho a percorrer.  A parceria é muitas vezes entendida como concorrência. Por outro lado, a noção de parceria para alguma industria e distribuição é entendida de forma enviesada, uma vez que há uma diferença negocial muito grande, sendo que a agricultura geralmente incorpora a maior parte do risco. No entanto, à medida que o setor se vai profissionalizando há uma tendência natural para que as coisas vão melhorando.


Numa outra vertente da sua experiência pessoal, o Rui acompanha de perto, e há vários anos, a actividade da Associação Terras Dentro, sediada em Alcáçovas, enquanto Presidente do Órgão de Gestão. Quer falar-nos um pouco da história, pressupostos e actividade desta Associação?

Terras Dentro (TD) nasceu em Alcáçovas no ano de 1991. Deram-lhe origem a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal de Viana do Alentejo e um grupo de cidadãos empenhados no desenvolvimento da sua terra. Nasceu a partir de um programa designado Iniciativa Comunitária Leader I. Esta iniciativa tinha, e tem ainda hoje, um principio fortemente inovador, o de serem as parcerias de cada território a definirem uma estratégia e a decidirem os respetivos projetos, através de uma unidade de gestão constituída por paceiros. Foi em resposta a esta iniciativa que nasceu a TD, como mais vinte associações espalhadas pelo país. O Leader teve mais duas versões, o II e o +, e foi no anterior quadro comunitário integrado no então PRODER. Hoje é uma media do PDR2020. Hoje todo o país rural, continente e lhas, está coberto por associações Leader. Foi um sucesso este programa.

A TD desde a sua criação foi ganhando competências em muitas áreas e hoje desenvolve uma atividade plurifacetada, nomeadamente, no empreendedorismo e animação territorial, na educação e formação, na área do ambiente, da solidariedade (é uma IPSS) e na Cooperação para o desenvolvimento (É uma ONGA – entidade equiparada a organização não governamental de ambiente). Desde 1997 é reconhecida como entidade de Utilidade Publica.

Ou seja, a TD no seu território de intervenção desempenha hoje um papel muito importante junto das populações. Papel muito importante tem que ver com as parcerias, verdadeiras parcerias, que a TD tem construído com parceiros do território.

Como referi, no atual PDR2020, a medida 10 esta destinada às atividades Leader, ou seja, os projetos têm decisão local, através de uma unidade de gestão, da qual sou o presidente. São projetos associadas ao desenvolvimento rural. Para além do presidente há mais 5 entidades representada no Órgão de Gestão, selecionadas de entre os parceiros, rodando em cada 2 anos. Este OG está incumbido de se pronunciar sobre as candidaturas da medida 10 do PDR2020, relativas ao território de intervenção, que se estende pelos municípios de Alvito, Vidigueira, Portel, Montemor-o-novo, Cuba e Viana do Alentejo, onde tem a sua sede, nas Alcáçovas. A decisão das candidaturas enquadrada-se numa estratégia nacional, prevista no PDR2020 em conjunto com uma estratégia territorial que foi desenhada para o território da TD, no âmbito da qual o Órgão de Gestão foi criado. Fruto da minha experiencia como coordenador nacional do Programa Leader+ fui convidado para presidir a este OG. Sou igualmente diretor da TD.

 

O trabalho da Terras Dentro tem sido meritório, tanto ao nível do desenvolvimento territorial sustentado, como ao da forte preocupação com as condições humanas. Nos dias de hoje é bem evidente a assimetria litoral/interior. Na sua opinião, será este tipo de movimento associativo um apoio e uma esperança para as populações que vivem ainda um pouco “fechadas em si próprias” e, de alguma forma, entregues à sua sorte?

 Manifestamente SIM. O território da TD estende-se maioritariamente pelo Alentejo profundo e não regado. Sabemos bem o que significa a assimetria. A TD já empregou mais de 40 técnicos, atualmente tem a seu cargo cerca de 25. Muitas das pessoas que trabalham na TD vivem nas Alcáçovas ou em zonas rurais adjacentes. Formaram família e têm os filhos a estudar na escola das Alcáçovas. Haveria outra forma de conseguir estabelecer um conjunto de pessoas com esta formação numa zona de interior profundo de Portugal? Este é sem dúvida um caminho. Estas realidades não aparecem nas estatísticas.  A TD, no âmbito da sua estratégia, vai “buscar” e integrar os vários incentivos que o estado coloca ao dispor e “trabalha-os” por forma a que os apoios sejam canalizados. Mais nenhuma entidade faz esta integração de forma tão eficaz na sua região de intervenção como a TD.

 

Em que medida Associações como a Terras Dentro podem ter um papel fundamental no desenvolvimento da região?

 Neste Alentejo não regado, este tipo de associações do terceiro setor têm um papel fundamental no desenvolvimento económico e humano dos seus territórios. Como referi, a TD é um motor de desenvolvimento na região, e em particular do seu território de intervenção. É por essa razão que todos os municípios têm uma relação de enorme proximidade com a TD, por lhe reconhecerem seriedade e competência no trabalho. São verdadeiramente uma associação de Desenvolvimento Local, porque toda a sua intervenção tem como propósito o território e as pessoas que lá vivem.

A melhor forma de vermos a importância de alguém é perguntar, e se ele se fosse embora? E se a TD fosse embora do território? Não era o fim do mundo, mas não seria tão bom.

Por outro lado, e voltando ao tema das parcerias, toda a intervenção da TD é baseada em parcerias. Dialogo, partilha, coresponsabilização e, consequentemente, confiança. As parecerias nas organizações são o equivalente à socialização nos Homens, e hoje, em muitos estudos, sabe-se que o sucesso de cada um e das sociedades em geral tem a ver com o nível de socialização que ao longo da vida se consegue atingir.

 

O empreendedorismo de sucesso no Baixo Alentejo requer premissas muito específicas. Sabendo que existem condições para que o desenvolvimento regional seja uma realidade, qual seria o seu apelo enquanto empresário, e enquanto membro da Terras Dentro, no sentido de evidenciar que o Baixo-Alentejo vale a pena, sendo uma região onde o investimento  está na ordem do dia?

Todos temos um modelo de desenvolvimento baseado naquilo que vimos, que lemos, que ouvimos, que sentimos.  E isso faz-nos sonhar, com uma sociedade mais justa, feliz, jovem, tranquila, promotora de uma cidadania plena em todas suas dimensões.  O Alentejo pode um dia ser uma sociedade melhor, que persiga o nosso sonho. Temos um motor de desenvolvimento baseado em algo que é nosso e só nosso, a terra, o sol, o ar e o fogo, felizmente apenas nas lareiras.

O meu sonho para o Alentejo baseia-se acima de tudo nas pessoas. Mais saúde, com um novo Hospital, melhorar os programas de atividades não letivas, apostando fortemente nas atividades culturais e no desporto como elemento de partilha e desenvolvimento pessoal dos jovens, reforçar a ligação do IP Beja às empresas, promover uma forte e inovadora política de natalidade, apoiando os casais com filhos e os que os querem ter, desenvolver uma rede de apoio aos idosos, quer nos cuidados quer na sua participação na sociedade, desempenhando o voluntariado um papel fundamental, desenvolver uma postura ativa na captação de investimento, com a indústria com papel cimeiro, através de benefícios orientados,  desenvolver uma rede de mobilidade mais moderna, e tudo feito com a preocupação de sustentabilidade ambiental e equilíbrio social.

Isto seria o sonho, mas muito pode ser feito neste sentido, e quem o pode fazer? O Estado? Precisa de ser espicaçado e tem outras prioridades, já se viu. A sociedade civil? Sim, mas quem pode encabeçar o movimento? Quem o quer fazer? Se houvesse alma e ambição, acho que apenas um alguém está em melhores condições de o fazer. De liderar o processo. Necessitaria de alma, inteligência, ambição e altruísmo democrático. Seria um sonho, mas pode ser um sonho, O, não sei se este, porque não o conheço, Presidente da CM de Beja. Precisava de ser livre, verdadeiramente livre para encabeçar este movimento, porque de um movimento se trata. O resto são questões técnicas de planeamento e gestão. A Vontade não vem nas leis nem nos orçamentos, mas é quem move montanhas.

 

"É meu, nosso, objetivo contribuir para ter um IPBeja com a região e um IPBeja para além da região!"

João Paulo Trindade é o Presidente do Instituto Politécnico de Beja. Nos escassos meses de mandato, já marcou a diferença, na dinâmica que tem imprimido ao Instituto. Pessoa profundamente enraizada no Alentejo, e com uma visão abrangente e de futuro, é hoje nosso convidado para falar, segundo a sua perspectiva, sobre o desenvolvimento da região, assim como da interacção entre o IPB e a comunidade empresarial.

 


A criação de emprego é fundamental para a fixação de pessoas no nosso território. A diminuição da população apresenta-se como um dos principais desafios que teremos, conjuntamente, de ultrapassar. Neste sentido, a combinação do investimento privado e do investimento público torna-se imprescindível. Importará não recorrermos a discursos e posições derrotistas, mas antes assumirmos as nossas capacidades e reclamarmos por ações que nos ajudem a potenciar as boas condições que temos.

 

 

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Na sua opinião, qual é o papel que o Instituto Politécnico de Beja deve assumir dentro de uma estratégia de desenvolvimento regional do Alentejo e do distrito de Beja, em particular?

 

Todos tiraremos proveito de um IPBeja forte, participativo, interventivo, solidário e consciente do seu posicionamento. Como?
(i) Recorrendo às suas atuais competências e promovendo o seu crescimento e desenvolvimento no contexto do ensino superior nacional.
(ii) Aperfeiçoando a sua notoriedade ao colocar em prática uma estratégia com ações de divulgação dos cursos e dos resultados dos projetos realizados, levando-os ao conhecimento da comunidade, fortalecendo a imagem e capacidade de comunicação.
(iii) Proporcionando condições mais adequadas à realidade atual do ensino superior politécnico que permitam o desenvolvimento de atividades de investigação, marcadas pela inovação e pelo empreendedorismo, preferencialmente em colaboração com outras instituições de ensino superior e com a comunidade exterior.
(iv) Otimizando a capacidade de captação de novos alunos, nacionais e internacionais, assim como a resposta às solicitações da sociedade em geral.
O IPBeja tem previsto no plano estratégico para 2018 um conjunto de ações em estreita ligação com os municípios, entidades e empresas da região que contribuirão no terreno para essa estratégia de desenvolvimento regional. Temos presentes políticas orientadas para a internacionalização, para a investigação aplicada, para as questões sociais, para os estudantes e para as nossas ofertas formativas. O IPBeja é uma instituição de ensino superior que está implicada em todas as dimensões que enquadram a sua missão.

 

Tem-se apontado, inúmeras vezes, para a necessidade de o IPB dialogar e trabalhar mais com as empresas da região. No seu entendimento, essa relação entre as empresas e o universo do conhecimento está de boa saúde, ou é claramente uma relação que precisa ser mais aprofundada?

 

A ligação efetiva à comunidade envolvente deverá ser traduzida através da resposta a necessidades e objetivos específicos da região, do setor empresarial, social e cultural. Deste modo, o papel do IPBeja sairá valorizado e reconhecido e daí poderão resultar propostas de eventuais novas ofertas formativas, reforço de parcerias para o conhecimento e novos projetos de I&D baseados na prática. Urge reforçar a visibilidade das atividades, projetos, prestações de serviço e investigação que são realizados por muitas estruturas do IPBeja com e para as entidades regionais.

O IPBeja tem desenvolvido um esforço no sentido de institucionalizar o trabalho em rede e as parcerias regionais, nacionais e internacionais. Importa, neste âmbito, destacar a aproximação às escolas de ensino secundário e profissional, às autarquias, às organizações de produtores e associações setoriais, às incubadoras, empresas e associações de desenvolvimento local.

As relações entre as entidades regionais podem e devem ser sempre melhoradas e aprofundadas. Procuraremos manter com a comunidade envolvente um relacionamento descomplexado, no sentido de criar pontes e encontrar soluções para problemas comuns. No planeamento a médio / longo prazo não poderemos deixar de ter em conta algumas realidades como sejam o contexto demográfico e socioeconómico, a profunda alteração introduzida pelo regadio e a importância da agricultura no Alentejo, a crescente procura turística e a enorme carência nacional e internacional, por exemplo, ao nível das profissões associadas às tecnologias de informação e comunicação.

É meu, nosso, objetivo contribuir para ter um IPBeja com a região e um IPBeja para além da região!

 

Existem já bons exemplos dessa cooperação entre o IPB e as empresas locais?

Existem inúmeros exemplos e casos de sucesso da cooperação entre o IPBeja e as empresas e instituições regionais, por exemplo, ao nível da prestação de serviços, participação conjunta em projetos, consultoria, estágios, utilização de equipamentos e laboratórios, entre outros. Esta colaboração assenta em diversos domínios do conhecimento, no âmbito das áreas técnicas e científicas que o IPBeja apresenta. Correria o risco de ser excessivamente exaustivo ao listar todos os bons exemplos ao nível desta cooperação e, ao mesmo tempo, de poder deixar alguns de fora.

 

Vivemos numa região predominantemente agrícola, sendo que este é um setor que vive um período de grande dinamismo no nosso distrito. Esse "novo" interesse pela "terra" teve impacto no número de estudantes que ingressam nas licenciaturas da Escola Superior Agrária de Beja?

 

Não terá tido ainda o impacto que todos desejamos e que pretendemos atingir, mas queremos potenciar esta atenção sentida no setor agrícola para conseguirmos um novo impulso na captação de estudantes e na oferta formativa nesta área. O posicionamento geográfico do IPBeja no contexto nacional implica, necessariamente, um investimento e atuação permanentes nos setores agrícola e agro-alimentar. O IPBeja apresenta nestas áreas excelentes resultados, com parcerias consistentes e de elevado nível técnico e científico. A Escola Superior Agrária, o Centro de Exploração Agrícola, o Centro de Experimentação Agrícola e o Centro Hortofrutícola, do IPBeja, realizam prestações de serviços, instalação e colheita de ensaios de campo e consultoria agrícola, de grande valia e reconhecimento pelas associações e agricultores da região.

 

Considera adequada a actual oferta formativa da ESA (Escola Superior Agrária), à realidade da região, onde as alterações das características das explorações agrícolas, provenientes da grande diversificação de culturas “trazidas” pela implementação do projecto Alqueva, são cada vez mais exigentes?

 

Os cursos lecionados no IPBeja gozam, na sua maioria, de reconhecimento e notoriedade junto das entidades empregadoras. Existe o cuidado de atualização dos planos de estudo, ajustando-os à natural evolução social, tecnológica e científica vivida na sociedade. A acreditação da A3ES confere-lhes a marca de qualidade e é um garante para qualquer candidato na hora de escolher o curso e a respetiva instituição de ensino superior.

Também neste domínio teremos de alcançar o equilíbrio entre a evolução do mercado e das necessidades que vamos vivendo e sentindo “lá fora”, com os exigentes percursos de qualificação e especialização dos nossos técnicos, docentes e investigadores. A alteração da oferta formativa nem sempre é possível de forma tão rápida quanto seria desejável. São exigentes as condições e requisitos definidos pela A3ES - Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior -  para a autorização de funcionamento de novos cursos. Não significa isto que não devamos estar atentos e procurar ir ao encontro das novas realidades, mas sempre com a garantia de qualidade nos procedimentos.

O IPBeja tem, em todas as suas escolas e departamentos, uma oferta formativa estabilizada, uma grande capacidade de investigação em várias áreas científicas e um corpo docente qualificado. Disponibiliza, atualmente, 17 CTeSPs, 14 Licenciaturas e 13 Mestrados. Procura-se que a oferta formativa seja construída de forma a permitir aos estudantes o prosseguimento dos estudos, o que acontece na maioria das áreas de formação. Assim, a partir de um CTeSP será possível ingressar numa licenciatura e, posteriormente, frequentar um mestrado na área.

Naturalmente que queremos sempre fazer mais e melhor e por isso o reforço nas atividades de investigação e desenvolvimento é um dos eixos da estratégia do IPBeja para os próximos anos.

 

Um trabalho já muito elogiado é aquele que se desenvolve através do CEBAL - Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo. Aqui, a transferência de conhecimento para o sector privado parece acontecer a um ritmo interessante. Pode falar-nos dessa relação do CEBAL com as empresas e com os agricultores?

 

Apesar de estar localizado nas instalações do IPBeja, o CEBAL é uma unidade autónoma, de investigação e desenvolvimento privada, sem fins lucrativos. Conforme pode ser consultado no resptivo site, “desenvolve relevante atividade na identificação e o desenvolvimento de novas oportunidades que possam ser aplicáveis à região nomeadamente nas áreas da produção vegetal, na produção animal, no processamento e melhoria dos produtos agrícolas e alimentares, na implementação de processos que permitam a obtenção de valor acrescentado a partir de sub-produtos e resíduos e na pesquisa de formas de valorização de matérias-primas tradicionais”.

O IPBeja participa na Direção do CEBAL, disponibiliza condições de funcionamento e mantém cooperação científica através da participação em projetos e atividades de investigação comuns.

 

Na sua tomada de posse declarou que uma das prioridades desta nova Direcção passa pelo aumento significativo do número de estudantes que frequentam os cursos oferecidos pelas diversas escolas do IPB. Está neste momento a decorrer uma primeira experiência de ensino no sector aeronáutico, através do Curso Inicial de Tripulantes de Cabine. Pode explicar-nos exactamente como nasceu esta ideia de cooperação entre o IPB e a G Air Training?

 

A exploração do cluster da aeronáutica foi um dos propósitos que apresentei quando da minha candidatura à presidência do IPBeja. Por outro lado, a proximidade de uma infraestrutura como o Aeroporto de Beja é motivo suficiente para que não possamos ficar alheios à possibilidade de também darmos, por via da nossa missão e no respeito das formações e especializações do nosso atual capital humano, um contributo para a sua exploração. Foi por isso que procurámos esta parceria com a GAir. Não sendo fácil contabilizar o número e os principais indicadores económicos das empresas em Portugal que desenvolvem atividade em torno do setor da aeronáutica, ninguém tem dúvidas da importância que esta indústria assume nas regiões em que se instala.

 

Qual foi a recepção do público a esta nova oferta formativa?

 

Foi boa, a formação realizou-se conforme previsto e com um elevado número de formandos. O curso de Pessoal Navegante de Cabina resultou da parceria IPBeja / GAir Training / Orbest, a parte teórica teve lugar no IPBeja e a componente prática nos Açores. Contou com estudantes do IPBeja, de outros pontos do País e até do estrangeiro. Existe a possibilidade de dentro de pouco tempo realizarmos uma nova edição deste curso. Trata-se de um curso breve sem atribuição de grau académico.

 

Acredita que a aposta formativa no sector aeronáutico não vai ficar por esta experiência? Que outras formações/cursos poderão vir a ser ministrados a curto/médio prazo?

 

Queremos fortalecer a ligação com as empresas aeronáuticas e caminhar no sentido de responder às necessidades de emprego qualificado. Apostamos na qualificação dos nossos estudantes para o emprego em setores de grande procura, aproveitando a existência e proximidade ao Aeroporto de Beja e à cidade de Évora onde estão instaladas algumas importantes empresas ligadas ao setor. Estamos interessados e disponíveis em aprofundar ofertas formativas, em parceria com o IPSetúbal, IPPortalegre, IPCastelo Branco e instituições europeias.

Temos consciência de que estamos a falar de um setor muito exigente, tanto a nível tecnológico como a nível de qualificação empresarial e pessoal. A necessidade de tecnologia avançada, de infraestruturas adequadas e de mão-de-obra altamente qualificada, são requisitos fundamentais para alcançar sucesso e reconhecimento internacional nesta área.

Neste contexto, o IPBeja assume as suas limitações, mas também as suas potencialidades e responsabilidades, estando por isso interessado e disponível para, em conjunto e aproveitando as sinergias existentes, contribuir para o aproveitamento e desenvolvimento desta importante infra-estrutura que poderá potenciar um cluster regional, com impacto nacional e internacional.

Importa não só consolidar o reconhecimento e afirmação das áreas lecionadas no IPBeja, mas também abrir espaço para equacionar a oportunidade de expandir a oferta formativa a novas áreas, como por exemplo, o setor da aeronáutica já referido, o setor mineiro, a agricultura de precisão, entre outras.

 

Considera que o desenvolvimento da região poderá passar por uma conjugação de investimentos privados em áreas específicas, embora o investimento público seja essencial para criar condições de fixação de populações e bons profissionais?

 

Sem dúvida. A criação de emprego é fundamental para a fixação de pessoas no nosso território. A diminuição da população apresenta-se como uma dos principais desafios que teremos, conjuntamente, de ultrapassar. Neste sentido, a combinação do investimento privado e do investimento público torna-se imprescindível. Importará não recorrermos a discursos e posições derrotistas, mas antes assumirmos as nossas capacidades e reclamarmos por ações que nos ajudem a potenciar as boas condições que temos. Só para dar um exemplo flagrante que todos conhecemos e sentimos, é urgente conseguirmos o investimento necessário na ferrovia entre Beja e Casa Branca que nos proporcione uma ligação rápida, segura e fiável a Lisboa.

Lembro que a decisão sobre a localização dos institutos superiores politécnicos em Portugal assentou numa lógica de “compromisso territorial” que permitisse cobrir também as regiões do interior de baixa densidade populacional.

 

Supondo que era abordado por uma grande empresa que pretende fixar-se na região, quais seriam os pontos chave que iria referir para convencer esses investidores de que Beja vale a pena?

 

Novos e elevados investimentos na fileira das agro-indústrias.
Expansão do regadio a grandes zonas do Alentejo.
Consolidação de muitas empresas agrícolas.
Novas acessibilidades e infra-estruturas disponíveis.
Crescimento do turismo.
Existência de boas condições “para se viver” na cidade de Beja.
Cidade segura que oferece boas infra-estruturas sociais, culturais e desportivas e uma boa qualidade ambiental e do clima.
Existência de recursos humanos qualificados, materiais e equipamentos disponíveis, que podem apoiar a instalação de novos negócios.
Existência do Aeroporto de Beja.
Bom posicionamento no eixo Lisboa – Algarve – Espanha.
Cidade com potencialidade para crescer.
Possibilidade de candidatura a fundos estruturais.



“Há uma via verde para o investimento em Beja”

Paulo Arsénio, presidente da Câmara Municipal de Beja, é o primeiro convidado da Hall Paxis a pronunciar-se sobre a estratégia de desenvolvimento para o território do alentejano.

 

ALENTEJO, UM AMANHÃ REINVENTADO é a designação do projeto Hall Paxis, através do qual se pretende ouvir a opinião de autarcas, empresários, personalidades da cultura e de outros sectores estratégicos. Mostrar que vivemos numa região de futuro, com imensas oportunidades e potencialidades, e onde investir é urgente, paralelamente a uma alteração na forma de estar e pensar as empresas, a sua sustentabilidade e, consequentemente, a esfera de acção e intervenção do cidadão comum, será o objetivo desta iniciativa da Hall Paxis.

 

Eleito em outubro de 2017, Paulo Arsénio aceitou conversar connosco, tendo sempre sublinhado que estamos a viver no concelho de Beja, um momento de viragem de paradigma. Há empresas e investimentos avultados a chegar ao território e é anunciada a criação de centenas de novos postos de trabalho, sobretudo relacionados com o sector aeronáutico e com a indústria transformadora de produtos agrícolas. O presidente do Município de Beja salienta que todos os investidores interessados em fixar os seus negócios na região são bem acolhidos no Gabinete de Apoio ao Investimento, e fala na existência de uma "via verde" eficaz para novos investimentos no concelho.

 

Durante a entrevista conversámos também sobre a clara intenção de revitalizar o centro da cidade, através de projetos que assentam no arrendamento a novas famílias e sobre a necessidade de se ter uma oferta cultural que ajude a potenciar a presença turística.

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O atual executivo da Câmara Municipal de Beja colocou as matérias relacionadas com o desenvolvimento económico no topo das grandes prioridades da governança.

Nestes primeiros meses o que é que já foi possível realizar e começar a idealizar? 

Tenho a consciência de que a nossa estratégia precisará de melhoramentos. Estamos ainda longe de atingir os objetivos a que nos propusemos, como será compreensível. Mas não posso deixar de referir que o nosso Gabinete de Apoio ao Investimento está com muito trabalho e teremos que reforçá-lo em número de funcionários. Têm vindo ter connosco um conjunto de investidores das mais diversas áreas, com intenção de investir na cidade e no concelho de Beja.

Temos em carteira um conjunto de projetos aos quais teremos que dar resposta a curto prazo. Os casos a que me estou a referir relacionam-se, sobretudo, ao nível da procura de terrenos adequados e a preços não especulativos, de maneira a permitir a instalação de novas unidades industriais. Neste ponto de vista, estamos em condições de assegurar que dentro de poucos anos assistiremos a um salto quantitativo no emprego em Beja, fruto destes novos investimentos.

 

Este Gabinete de Apoio ao Investimento surge como um serviço que acompanha estas manifestações de interesse. Como é que funciona?

Serve para acompanhar individualmente e com recurso a técnicos especializados todas as intenções de investimento que chegam à Câmara Municipal de Beja. E, sempre que esteja disponível, o próprio presidente da autarquia recebe e acompanha esses putativos investidores. Eu diria que neste momento há quase uma "via verde" para o investimento em Beja. A grande maioria dos empresários sentem, ao passar pelos nossos serviços, que conseguiram estabelecer uma relação de confiança com o Município. Isso é que é importante. Desse ponto de vista, entendo que estamos a trabalhar bem, embora os resultados nem sempre possam ser visíveis de forma imediata, serão visíveis com o passar do tempo.

 

Que tipo de informação é que estes investidores procuram junto da autarquia?

Sobretudo, procura-se informação relacionada com a disponibilidade de terrenos. Temos tido contacto de muitos investidores disponíveis para a aquisição de terrenos a preços comerciais. Infelizmente, muitos deparam-se com os preços especulativos praticados pelos proprietários dos respetivos terrenos. No sector da aeronáutica isso é particularmente notório. Ou seja, sempre que há a possibilidade de se vir a instalar uma empresa deste ramo, por se verificar uma subida injustificada do valor dos terrenos. Esta situação faz com que os operadores sejam obrigados a estudar outras opções, podendo a opção final não recair no concelho de Beja devido à especulação.

A Câmara Municipal de Beja está a fazer o seu papel, identificando terrenos privados e públicos de forma a facilitar essa instalação, dando a possibilidade aos empresários de mostrarem que trazem projetos sólidos e que vêm para criar emprego.

 

Há uma bolsa de terrenos que pertencem ao Estado, nas imediações do Aeroporto Civil de Beja. A que prazo poderão vir aa esta disponíveis para a instalação de empresas?

Existe um Plano de Expansão do Aeroporto, com 39 hectares que são do Tesouro e que pertenciam à antiga EDAB (Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja) e que são do Estado Português. A Câmara Municipal de Beja está interessada em adquirir esses terrenos.

 

Seria importante  para regular o valor de mercado ?

Claro que sim. E além desses 39 hectares, existem mais 46 hectares que são propriedade de um particular, que poderão vir a ser importantes para empresas que se queiram instalar na zona do Aeroporto.

Depois, existe um conjunto de agroindustriais e comércio de vários ramos que se querem instalar em Beja, não propriamente na zona do Aeroporto, mas em parques industriais.

 

E temos reposta para essas manifestações de interesse?

Temos um parque que nos foi deixado de herança pelo anterior executivo, a Zona de Expansão Norte, onde vamos agora retomar as escrituras depois de as termos suspenso por falta de verbas para as infraestruturas. Neste momento concorremos a um aviso da CCDRA que nos permite aceder a verbas para infraestruturar nesse novo loteamento, com dinheiros da União Europeia, competindo ao Municipio de Beja uma comparticipação de 15 por cento dos dois milhões de euros necessários à obra. As escrituras que agora estamos a retomar com os empresários, referem que, caso não seja aprovada esta candidatura, serão os empresários a assumir 50 por cento do valor das infraestruturas, cabendo ao Município de Beja o investimento em falta. Nestas escrituras é consagrado o direito de reversão, ou seja, se a construção não tiver inicio no prazo de 24 meses e não terminar no prazo de 36 meses a Câmara Municipal de Beja tem o direito de voltar a adquirir esses terrenos.

 

Que projetos empresariais poderão vir a ser instalados nessa nova zona industrial? Falou em agroindustriais, mais especificamente...?

Acabámos de desbloquear todas as questões pendentes com vista à instalação, a título de exemplo, da Fairfruit. Este projeto estava a aguardar financiamento do IAPMEI, tendo sido concretizado no mês de Janeiro. Estamos a falar num investimento na ordem dos 14 milhões de euros e com a previsão de criação de 80 postos de trabalho.

Este será o projeto mais conhecido, mas depois temos também a Fertigal, um investimento espanhol relacionado com adubos. Vamos agora finalizar esta escritura com a cedência de mais 5 mil metros quadrados, que completam uma faixa de ligação à estrada. E vamos avançar, em breve, com mais duas escrituras de outros investimentos muito relevantes.

Ainda não posso identificar alguns dos investidores, mas permita-me que diga que vamos ter, naquela zona, investimentos muito surpreendentes para a cidade e para o concelho de Beja, estimando-se, para aquela nova zona industrial, a criação líquida de 250 novos postos de trabalho.

 

Está a referir-se à indústria da transformação, correto?

Estamos a falar do sector da transformação. São investimentos relacionados, sobretudo, com a transformação de produtos agrícolas, mas também existem investimentos relativos à metalomecânica e outros.

 

Quando serão visíveis os resultados práticos de toda esta aposta no desenvolvimento económico do concelho de Beja?

Acredito que os resultados serão visíveis nestes primeiros quatro anos. Vai ser possível assistir à concretização de alguns destes investimentos que nos irão deixar a todos agradavelmente surpreendidos. Acredito que vão começar a ser criados novos postos de trabalho efetivos.

 

O atual mandato começou da melhor forma possível, com a Hi Fly a anunciar um primeiro investimento em Beja. Qual é o ponto de situação desse investimento?

Nas primeiras três semanas de mandato reunimos três vezes com os responsáveis da Hi Fly, e o processo encontra-se em velocidade cruzeiro. O hangar está a ser construído em Inglaterra e as previsões apontam o inicio da sua montagem, em Beja, para os meses de Abril ou Maio. As previsões da empresa apontam para que a instalação fique concluída até ao final de 2018. Sabemos que a Hi Fly está a trabalhar de forma muito próxima com o IEFP, na tentativa de recrutamento de técnicos de manutenção de aeronaves, uma vez que necessitam de 150 profissionais. As pessoas a recrutar terão que possuir o 12º ano de escolaridade e ter conhecimentos de matemática e inglês, e é aqui, nestas habilitações, que os responsáveis pelo recrutamento têm encontrado algumas lacunas que dificultam o preenchimento das vagas existentes. A Hi Fly dará toda a formação técnica aos futuros funcionários que irão operar na manutenção de aeronaves, uma formação de 18 meses, dos quais os primeiros nove serão feitos em contexto de pura aprendizagem e depois começam a trabalhar diretamente nas aeronaves. Vamos receber, para manutenção, aviões Airbus A330 e A340.

Este primeiro projeto da Hi Fly é muito importante para Beja, por ser a primeira vez que os cidadãos do concelho, e também do país, vão poder compreender que o Aeroporto de Beja é um projeto viável. Não podendo ser um Aeroporto dirigido, sobretudo, ao tráfego de passageiros (que pode bem ser uma atividade complementar), é bom ver que estamos agora a dar os primeiros passos relacionados com a manutenção de aeronaves. As oficinas de manutenção de aviões poderão ser, a breve prazo, uma componente muito importante do Aeroporto de Beja.

Existe ainda a possibilidade de alargar a manutenção aos aviões A380, que é um dos maiores aviões do mundo e ainda a possibilidade de construir um segundo hangar. Tudo isto são investimentos projetados pela Hi Fly.

 

Numa entrevista recente anunciou a intenção da autarquia em requalificar um edifício na Praça da República para, posteriormente, os futuros apartamentos virem a ser colocados no mercado de arrendamento. Este investimento pretende trazer as famílias para dentro do centro histórico?

Estamos a falar, num primeiro momento, numa ação que decorrerá na Praça da República, mas que pode depois estender-se para outras artérias, nomeadamente a Rua do Touro, a Rua da Cadeia Velha e outras.

Na Praça da República, a ideia será intervir num edifício que foi doado à Câmara Municipal de Beja a meio do mandato anterior. Aquilo que esteve previsto era a criação de um grande centro de serviços, com a criação de 80 postos de trabalho. Nós deixámos cair esse projeto e candidatámo-lo à reabilitação para habitação no centro da cidade.

Nós entendemos que com serviços que encerram às 16 horas, as pessoas vão embora e deixam deserto o centro da cidade. Nós tencionamos devolver alguma vida ao centro histórico, procurando instalar aqui famílias. A tipologia de apartamentos prevista para este projeto não supera o T2. Estaremos a falar de estúdios, T1 e T2 para famílias não muito numerosas, a preços não especulativos. No fundo queremos dar vida ao centro, aumentando o número de pessoas que aqui vivem.

 

Com a sua chegada à presidência da autarquia, o Município começou a utilizar um novo slogan: Beja, o Centro do Sul. Quer explicar-nos este novo conceito...

É um conceito global. É um conceito de território em primeiro lugar, porque estamos entre Lisboa e o Algarve, estamos entre a Costa Alentejana e a fronteira de Espanha. Geográfica e objetivamente somos o Centro do Sul.

Do ponto de vista económico é a afirmação mais difícil, mas estamos apostados em crescer nesta área.

E depois, também, o Centro do Sul do ponto de vista da dinamização cultural, das nossas tradições, dos nossos saberes e dos nossos sabores. Queremos marcar uma diferença que seja qualitativa. Precisamos de nos afirmar pela positiva, com eventos diferenciadores e únicos que façam as pessoas vir a Beja.

 

Por falar em eventos diferenciadores, em Junho a cidade acolhe pela primeira vez o Festival B...

Já temos eventos que nos diferenciam. É o caso das Palavras Andarilhas, do Festival de Banda Desenhada, o FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo, entre outros.

O evento inovador que lançamos é o Festival B, que vai aliar vários patrimónios da humanidade num só evento que decorrerá, este ano, a 22, 23 e 24 de Junho.

 

Obrigada, Senhor Presidente.

ALENTEJO. UM AMANHÃ REINVENTADO

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A Hall Paxis inicia na próxima segunda-feira, com a publicação de uma entrevista a Paulo Arsénio, presidente da Câmara Municipal de Beja, a publicação de um conjunto de entrevistas a personalidades dos mais diversos sectores de atividade que visam aprofundar a discussão de uma estratégia de desenvolvimento para o nosso Alentejo. O projeto será publicado no blogue da Hall Paxis e nas restantes plataformas que usamos regularmente e terá a designação de ALENTEJO, UM AMANHÃ REINVENTADO.

 

Não é surpresa para os nossos seguidores que enquanto empresa implementada na cidade de Beja, é nosso entendimento o dever de interagir com a comunidade, e contribuir activamente para o desenvolvimento da região.

Na nossa qualidade de empresa de mediação imobiliária, somos diariamente confrontados com situações várias, colocadas por investidores que estão ou pretendem instalar-se no nosso território. Essas situações são de várias ordens.  Destacamos, sobretudo, o paradoxo entre o potencial de desenvolvimento numa zona do país onde está imensa coisa por fazer, e a estagnação verificada ao longo de anos, fruto de um desinvestimento crescente e de um aparente desinteresse por Beja e pelo Baixo-Alentejo.

 

Sentimos a extrema necessidade de mostrar que vivemos numa região de futuro, com imensas oportunidades e potencialidades, e onde investir é urgente, paralelamente a uma alteração na forma de estar e pensar as empresas, a sua sustentabilidade, e consequentemente, a esfera de acção e intervenção do cidadão comum.

Desta forma, pensámos em realizar uma espécie de painel, por onde passarão pessoas dos mais variados sectores de actividade, cultural e ideológica, mas, cujo propósito comum, é dar a conhecer aquilo que de bom temos para oferecer em termos de investimento privado, que terá implicitamente que ser complementado com investimento público, e assim, conferir à região de Beja a excelência a que tem direito.

 

Esperamos assim poder contribuir para a reflexão que se impõe num momento crucial da região, e em conjunto colocarmos o dedo nas várias feridas, e olhar para a reinvenção de um Alentejo único, de gentes ímpares, de uma riqueza cultural extrema, e onde a oportunidade de investimento é uma realidade.

A todos quantos acompanharem esta nossa “viagem” ao longo de alguns meses, o nosso muito obrigado!

Um agradecimento muito especial a todos quantos acederam em dar o seu contributo e a sua cara neste projecto conjunto!

 

Maria Helena Palma
Directora da Hall Paxis

Algumas linhas sobre comércio local

 

 

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O comércio local é, ou deveria ser, uma das principais fontes de emprego e de desenvolvimento socioeconómico dos municípios (principalmente dos mais pequenos), capaz de gerar receitas municipais que permitam um melhor e maior investimento em áreas distintas.
Promover o consumo na própria região, assim como dos produtos que nela têm origem, significa um investimento gerador de valorização daquilo que é nosso, dos nossos bens. Ao mesmo tempo, é uma aposta que se assume como plataforma impulsionadora para a riqueza regional e social, não só através das receitas geradas, mas sobretudo da capacidade de gerar postos de trabalho com salários certos, que possam proporcionar bem-estar e melhoraria da qualidade de vida a quem os aufere.
Priorizar o comércio local gera um ciclo de mais-valias, estimulando a circulação de dinheiro e alavancando a economia local, envolvendo simultaneamente os munícipes no crescimento estrutural da sua cidade, vila, aldeia ou região.

Actualmente, manter activo o comércio local requer bastantes sacrifícos, muita burocracia e uma determinada disponibilidade financeira para fazer face não só à tributação exigida, como aos investimentos inerentes à actividade. As rendas dos espaços são hoje um dos “Calcanhares de Aquiles”, senão mesmo a maior ameaça à continuidade do pequeno comércio, a par da concorrência das grandes superfícies comerciais. É certo que nelas existem factores atractivos de ordens diversas, como sejam a diversidade de oferta, a facilidade de estacionamento e estratégias de marketing promocionais, que levam o consumidor a optar pelos grandes centros comerciais e supermercados, em detrimento do comércio de rua. Contudo, existem igualmente estratégias que, a serem desenvolvidas, podem potenciar a atractividade dos centros urbanos, contribuindo para o aumento do fluxo pedonal nas ruas onde o pequeno comércio se desenvolve. A disponibilidade de estacionamento é outra das questões que deverá ser tida em conta, assim como os incentivos ao empreendedorismo e a facilidade de acesso ao microcrédito.
Enquanto consumidores, também nós podemos contribuir para o desenvolvimento deste sector e para uma maior competitividade das empresas locais sendo exigentes. Um consumidor consciente sabe analisar todos os factores que influenciam o preço final de um determinado produto, podendo confrontá-lo com a realidade económica e serviço prestado. Ao procurar as melhores opções, o melhor preço/qualidade, sabendo ouvir sugestões e dando as suas, o consumidor incentiva as diferentes empresas locais a procurar as melhores soluções que visem um maior destaque no mercado, priorizando a qualidade e o serviço.
Como é do conhecimento geral, apesar da sua importância, o pequeno comércio é um sector extremamente sensível e dependente das políticas públicas, tendo sofrido bastante nos últimos anos, votado à sua própria sorte.

 

Mas vamos a números e ao propósito pelo qual decidi escrever este artigo. O número de lojas de rua fechadas na cidade de Beja é assustador, tendo contabilizado mais de 20 entre a Avenida Miguel Fernandes, a Rua do Vale, Portas de Mértola e envolventes. A maioria apresenta placas informativas de venda ou arrendamento, percebendo-se de imediato, assim que questionados os valores, o motivo pelo qual se mantêm e manterão encerradas. Rendas a ascender 600 euros, até ao máximo de 1000 euros, numa cidade onde a economia local esmorece, onde os apoios ao desenvolvimento do comércio são praticamente nulos, vítimas dos sucessivos anos de desinteresse político, desertificação, abandono da população e da mais recente crise económica. Se comparados estes valores com os valores de renda de um espaço comercial numa grande superfície do interior do país, a diferença não é de todo significativa, existindo espaços onde o valor do metro quadrado para arrendamento se situa entre os 5 e os 15 euros, significando 500 a 1500 euros/100 m2. (Como nota informativa, na região de Lisboa, excepção feita aos Retail Park, o valor do m2 nas maiores superfícies pode atingir máximos de 90 euros e mínimos de 40. Se no centrarmos na Avenida da Liberdade, umas das principais artérias e a mais cara no que respeita ao comércio de rua, facilmente encontramos valores médios na ordem dos 35 euros/m2 para arrendamento ).
É preciso inverter esta tendência e sermos nós, cidadãos locais, a contribuir para a mudança.
Queremos mais e melhor, é certo, mas também somos nós os primeiros a condenar o que de novo nasce e se tenta enraizar. Procuramos para lá das muralhas do nosso castelo, o que estando cá dentro já não é tão bom assim, lamentando-nos sobre a desertificação do nosso centro urbano, quando somos nós quem o vê definhar e deixa morrer.
Acima escrevi que “priorizar o comércio local gera um ciclo de mais-valias, estimulando a circulação de dinheiro e alavancando a economia local, envolvendo simultaneamente os munícipes no crescimento estrutural da sua cidade, vila, aldeia ou região”. E é disto que Beja precisa. Da envolvência e luta dos seus cidadãos, neste e noutros aspectos essenciais à sua manutenção e crescimento.

 

Rita Palma Nascimento

 

A Importância de Fazer Diferente na Mediação Imobiliária

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Ouvimos diariamente que “o mercado está em alta”, que a oferta para habitação é escassa e que a procura excede, em grande percentagem, os imóveis disponíveis no mercado.
O contacto pessoal, directo e diário com este sector de actividade, faz-nos perceber que esta não é a realidade da cidade de Beja, importando, por isso, frisar pontos específicos que possam ajudar a perceber melhor as características do nosso mercado, em particular. Desta forma, vendedores e potenciais compradores poderão, de forma mais consciente, adequar as suas pretensões e propósitos de compra/venda à realidade atual. É certo que não atravessamos o período mais apetecível para quem vende, sendo igualmente verdade que o número de transações é inferior ao esperado e não tão frequente quanto o desejável. A isto junta-se, como agravante, a dificuldade que as famílias enfrentam no acesso ao crédito, assim como os jovens, cujas condições de trabalho inviabilizam, na maioria dos casos, o financiamento bancário. O valor pelo qual um imóvel entra no mercado, face ao valor real para venda é outro dos factores que “assusta” os potenciais interessados, fazendo-nos cair no erro de que não existe procura para aquele imóvel em particular. O mesmo acontece relativamente ao estado de conservação, materiais utilizados e decoração de interiores.

 

Logicamente, e porque cada caso é um caso, deparamo-nos com processos uns mais complexos do que outros, requerendo mais ou menos disponibilidade de conhecimento, aptidão e ferramentas para que possam ser concluídos. Preferimos encará-los como desafios porque, no fundo, não existem imóveis invendáveis, a todos corresponde um comprador, agora ou mais adiante. A peça chave será sempre atuar em conformidade, por forma a solucionar a situação. Para isso, é essencial fazer-se melhor e diferente. A inserção do imóvel nas diferentes plataformas de divulgação online e meios tradicionais não é suficiente, assim como não o é a colocação da placa de venda e o contacto isolado a determinados clientes em carteira. A motivação do vendedor será, também, um factor determinante para o sucesso da transação, sendo essencial trabalhá-la.

 

O agente imobiliário tem então em mãos tarefas tantas vezes classificadas de “quase impossíveis”, necessitando, ele mesmo, de uma dose extra de auto-motivação. Exemplos serão os casos de vendas judicias, situações de penhora, situações de heranças e divórcio em que tantas vezes é necessário mediar conflitos, licenciamentos por concluir, desanexações, proteção de direitos dos menores, etc.
Satisfazer o cliente é o objectivo. O profissionalismo, o trabalho, a dedicação, o empenho, a honestidade e a transparência fazem o caminho.
Qualquer pessoa afecta a um ramo de negócio só evolui quando existe uma conexão genuína entre as partes, o que acontece sempre que a comunicação e linguagem são coerentes e claras, indo de encontro, de forma empática, ao cliente. Ponto que não deverá, em situação alguma, ser descurado.
É imperativo saber ouvir, escutar e compreender as necessidades dos clientes, transmitindo-lhes confiança e respeito. Este será o passo que, aliado ao desenvolvimento de estratégias concisas e bem estruturadas, levará ao sucesso de todas as partes: vendedores, compradores, mediadores, agência e transação.

 

Rita Palma Nascimento

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