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Hall Paxis

Integrada na rede nacional Hall, esta imobiliária atua em todo o distrito de Beja.

Hall Paxis

Integrada na rede nacional Hall, esta imobiliária atua em todo o distrito de Beja.

"Uma marca que é preciso assumir, promover e valorizar. O Baixo Alentejo é um diamante em bruto"

"Comediante, actor, cronista, dobrador, escritor, Bejense e Sportinguista”, assim se apresenta nas redes sociais. Quem o conhece sabe da profunda paixão que nutre por Beja. Incansável na divulgação e promoção do território baixo-alentejano, interventivo e frontal, Bruno Ferreira, está hoje connosco à conversa.


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Ainda de acordo com o mesmo jornal, constata-se que o Baixo Alentejo é a terceira região mais produtiva do País, logo depois de Lisboa, com 109,5% ou seja, bem acima do todo nacional, enquanto o AA (Alto Alentejano e o Alentejo Central) se situam a meio da tabela com 92,3%, portanto abaixo do todo nacional.



Bruno, a faculdade levou-o para Lisboa e é lá que tem desenvolvido a sua vida profissional, mas Beja tem-se mantido sempre no seu coração. Ao invés de tantas outras pessoas que partem e raramente voltam, o Bruno é uma pessoa assídua na cidade e acompanha de perto o que por aqui se vai passando. Quer falar-nos um pouco sobre isso?

É verdade. Saí de Beja em 1993, com destino a Lisboa, para me licenciar em Relações Públicas e Publicidade, um curso no âmbito da comunicação, de um modo geral, mas focado na comunicação empresarial, de forma mais particular. Em boa verdade já tenho mais anos de Lisboa do que de Beja, o que faz de mim, como costumo dizer a brincar, um Lisbejense. Tive a fase normal de afastamento, como todos os jovens que saem das suas terras rumo a uma cidade grande; é o período do encantamento, do conhecimento e descoberta, de novas pessoas e novos espaços, de abrir os olhos ao mundo imbuído de novos conhecimentos académicos e vivenciais. Talvez durante os dois primeiros anos tenha vivido Lisboa, e todas as suas ofertas boémias, culturais, relacionais, etc., de uma forma muito intensa. Depois de 19 anos de idade, e de Beja, e olhando a esta distância, imagino que sentisse essa necessidade de afastamento naquele momento concreto. E o afastamento tem sempre um lado bom. Que é o do reencontro. Sem afastamento não nos toca a saudade, não sentimos as nossas faltas, sejam elas afectivas, ou meramente olfactivas ou visuais. Quem pode esquecer a silhueta do mais belo Castelo do mundo? Ou o perfume de uma tarde de Primavera? E foi rigorosamente isso que aconteceu. Soube-me tão bem esse afastamento quanto o prazer que me deu a reaproximação à minha cidade. Apesar de continuar a viver em Lisboa mantenho o coração irremediavelmente refém da minha cidade de Beja.


Todas as pessoas têm conhecimento que o Bruno é um dos fundadores e mentores do Movimento Bejamerece+, criado há alguns anos, na defesa das acessibilidades a Beja. Neste momento o Movimento ganhou novo fôlego, está mais dinâmico e tem maior visibilidade, preocupando-se agora com outros aspectos que não são já apenas o comboio e a auto-estrada. Considera que a globalidade dos temas, actualmente defendidos pelo movimento, poderá só por si ter suficiente força reivindicativa junto do poder?

Permita-me uma correcção: não estive no início do Movimento Beja Merece. Este movimento surgiu em 2011, encabeçado por várias pessoas de Beja, bastante activas na luta pelo comboio e pela linha ferroviária do Alentejo. Estamos a falar de gente como o professor Florival Baiôa, o António José Barahona, o José Filipe Murteira, ou o Jorge Serafim. Nesse período apenas colaborei em acções pontuais como, por exemplo, o espectáculo no Pax Julia.

Não sei dizer ao certo quando, ou como me tornei mais pró-activo dentro do Movimento. Creio que terá sido no fim de 2016. Apaixonei-me pela causa e aproximei-me das pessoas mais activas, neste caso do Florival Baiôa por quem nutro uma estima, amizade, e admiração incomensuráveis. Nesse início de vida o Movimento esteve bastante activo, juntando uma significativa fatia da população de Beja. Depois, como quase todas as coisas de uma forma geral, e os movimentos de cidadãos em particular, houve um período de acalmia, sobretudo depois da Petição Pública experimentada nessa altura não ter obtido os resultados desejados na Casa da Democracia. Mas a semente continuou no espírito das gentes até porque, infelizmente, cada vez foram surgindo mais motivos para que as pessoas se indignassem, se revoltassem e quisessem arregaçar as mangas e participar, de forma livre, numa luta independente por uma Beja e um Baixo Alentejo diferentes, com qualidade de vida e justamente mais desenvolvidos. E por isso o Movimento renasceu. As pessoas voltaram a juntar-se, e a essas outras mais. Como que para marcar este seu segundo fôlego, ao Movimento Beja Merece foi acrescentado um Mais (+), em 2017.

Paralelamente as causas evoluíram para todo o Baixo Alentejo e saltaram dos carris do comboio para o asfalto das estradas, as asas do Aeroporto e a saúde do Hospital. Isto tornou o Movimento mais robusto, com maior amplitude quer de interesses, quer na sua geografia. Actualmente há muita gente a trabalhar com o Movimento. Paradigmática foi a Reunião Magna levada a cabo no Teatro Pax Julia, em Beja, no fim de 2017, que juntou quase seis centenas de pessoas de todos os quadrantes políticos, ideológicos e proveniências sociais. Fazendo do BMM um caso modelo a nível nacional. Em votação esteve uma decisão à partida polémica, mas que acabou por ter uma votação expressiva: o Movimento de Cidadãos não iria ser transformado numa Associação, com personalidade jurídica e estatutos formais. O BMM permanece da forma mais genuína possível, não organizada, (o que também não implica ser desorganizado), e suprapartidário, ou seja, colocando-se acima dos partidos políticos, mas contando com a intervenção destes na defesa conjunta de objectivos comuns. De notar que mesmo os que estiveram contra a moção vencedora nunca deixaram de colaborar ou apoiar o Movimento.

Relativamente às razões de pedir que consubstanciaram a Petição Beja Merece Mais, que está agora na sua fase de recolha, teremos primeiramente de aguardar pela contagem de assinaturas. Que terá tido uma participação massiva é já uma certeza. Centenas de pessoas mobilizaram-se pelo Baixo Alentejo, mas também pelo Algarve, Lisboa, Ribatejo, Margem Sul, Norte do País, e em várias comunidades de emigrantes, com o fim de divulgar e partilhar a petição, ajudando de todas as formas na recolha de assinaturas.

Resta agora saber se o desiderato das 20.000 assinaturas foi alcançado. Se assim for abrem-se portas novas e caminhos ainda não trilhados. E daí poderá surgir o sucesso. Com mais de 20.000 assinantes, a petição passa a poder ser acompanhada de propostas de recomendação ao governo - projectos de resolução - no mesmo sentido das que a petição avançou. Os projectos de resolução podem ser apresentados por um ou mais partidos, que poderão agendá-los para a mesma data do debate da petição no plenário da AR. No caso de não alcançarmos as 20.000 assinaturas será, sempre, uma petição com um resultado robusto. Mas que que se arrisca a não produzir os efeitos esperados. Contudo, e em caso afirmativo, segue-se uma interessante negociação política com todos os partidos representados na AR. Nesse momento saberemos quem está, e quem não está, com o Baixo Alentejo. E que partidos têm o interesse de reabilitar definitivamente toda uma região carenciada e abandonada. Mas ainda falta algum tempo até termos todas essas respostas.


O Baixo-Alentejo está em transformação e constitui, hoje, uma região de oportunidade para investir, quer ao nível do sector agro-alimentar, quer das indústrias daí decorrentes, do turismo e, mais recentemente, da aeronáutica. Face a este potencial de desenvolvimento, com um interesse crescente por parte de investidores privados, que reflexão faz em relação a dois momentos: o hoje, e o futuro?

Nestas matérias sou doentiamente optimista. Desta forma não consigo acreditar que na Cidade, Concelho e Distrito de Beja, e no Baixo Alentejo, o amanhã não seja melhor do que o hoje. Em bom rigor podemos notar que tudo o que já foi feito, bem como o que está a ser levado a cabo noutras paragens, regiões e distritos nacionais, quase nem começou, ainda, em Beja e no Baixo Alentejo. Apesar de isso, só por si, ser altamente injusto, por outro lado, significa que as oportunidades estão ainda quase intactas. Basta reverter as carências em ensejos, as faltas em oportunidades, o abandono em investimento. Para o crescimento sustentado de uma comunidade que fica distante dos grandes centros de decisão, como é Beja e o Baixo Alentejo, é necessário que o investimento seja equilibrado entre o que é público e o que provém da iniciativa privada. E, neste momento, precisamos com urgência de investimentos de ambas as proveniências.

Veja-se a saúde, por exemplo: o Estado tem o dever de proteger os cidadãos nesta matéria, oferecendo-lhes o direito à saúde. Existe - ainda que depauperado - mas existe um Serviço Nacional de Saúde. Existe uma rede de hospitais (desde há tempos dividida em regiões e sub-regiões de saúde, numa espécie de decalque de um mapa de regiões já rejeitado pelo País, mas já lá vamos), munidos de cuidados integrados de saúde, nomeadamente a promoção e vigilância, a prevenção da doença, o diagnóstico e tratamento dos doentes e a reabilitação médica e social.

Pergunto se esta teia de serviços existe e funciona no Hospital e Beja, ou nos demais do Baixo Alentejo. Não. Desta forma o Estado está em falta. O que não quer dizer que em Beja não devêssemos, ou pudéssemos ter um hospital privado. Não com o objectivo de prestar o serviço que o Estado não presta, só de per si. Até porque a saúde, enquanto sector, não pode ser privada, logo paga, em Portugal. Mas no caso específico de Beja, uma saúde privada pode e deve servir de alternativa, e só alternativa, para quem tem condições económicas para a poder pagar; para os titulares de seguros que podem alternar idas ao público com o privado, sendo que acabaria por colmatar inúmeras falhas, ao mesmo tempo que libertava espaço de atendimento no serviço público. E que traria para Beja mais quadros de saúde, médicos e enfermeiros, abriria vagas de trabalho em inúmeros sectores, como secretariado, segurança, construção/manutenção, serviços, fazendo funcionar a economia e oferecendo maior bem-estar e segurança à região. Sem esquecer que também o turismo se faz, cada vez mais, em função da existência de serviços de saúde consistentes e próximos. Já para não falar de sectores como a indústria, que envolvem muitas vezes riscos para a saúde que podem ser minorados com serviços de qualidade de proximidade. Mas atenção: nunca como substituição das obrigações do Estado.

No que toca ao sector agro-alimentar e industrial, é vital que também aqui a iniciativa privada se instale na região, criando riqueza, postos de trabalho, pagando impostos e dando corpo e poder a um sector que está, nesta fase, quase moribundo. Já existem alguns exemplos, como a Fair Fruit, entre outros, que são falados há anos. Contudo se nos pusermos do lado destes investidores constatamos que para um interessado se instalar em Beja, ou na generalidade do Baixo Alentejo, faltam, ainda, um conjunto de infra-estruturas básicas como sejam as vias de comunicação. Se eu abro uma fábrica em Beja, que processe polpa de fruta ou compotas, por exemplo, terei de ter condições de transporte que assegurem que uma frota de pesados possa trazer matéria-prima, ou outros bens, e levar a produção da fábrica seja para onde for. Mas como é isso possível sem comboio, sem estradas, sem IP, sem Auto-estrada, ou mesmo sem a valência aeroportuária, neste caso como interposto de cargas e descargas, ou seja, importações/exportações?

Como é possível captar investimento industrial, agro-alimentar, ou até tão só agrícola, se Beja é, neste momento, a única capital de distrito que não é servida por uma via com, pelo menos, características físicas de Itinerário Principal? Se a obra mais recente e com algum significado efectuada no corredor do IP8 (que liga o litoral atlântico à fronteira com Espanha) no distrito de Beja foi feita há cerca de 30 anos? Se na maior parte da sua extensão a via não possui sequer bermas pavimentadas, nem as larguras definidas na legislação para Itinerários Principais?

O facto de, nesta estrada - que de acordo com vários projectos e anúncios governamentais, deveria já ser a auto-estrada A-26 - circular em simultâneo tráfego agrícola significativo, elevada quantidade de tráfego de pesados de mercadorias, e o tráfego tradicional, faz com que apresente uma degradação galopante oferecendo condições altamente deficientes do ponto de vista do conforto, mas sobretudo da segurança rodoviária.

É preciso compreender que só um tecido empresarial e industrial forte terá peso e voz na exigência das infra-estruturas necessárias, e que continuam em falta no Baixo Alentejo. O sector, e tal como se encontra nos últimos anos, não consegue ter expressão suficiente para reivindicar ao Estado essas contrapartidas pela economia que gera, os empregos que cria, e os impostos que paga. Por outro lado faltam pessoas à região para levar a cabo essas mesmas reivindicações. E se o Estado não é pressionado a agir, as condições necessárias à instalação de novos projectos industriais, agrícolas e empresariais não vão acontecer. E as pessoas continuarão a partir, em busca de melhores condições de vida noutros lados. É uma relação causa-efeito que é preciso inverter e por a funcionar.

E, justamente por estas razões, podemos aqui juntar o factor do turismo, ou mesmo da tão falada criação de um Cluster Aeronáutico. Nem uma nem outra solução podem existir sem vias de comunicação. Se bem que ambas, maioritariamente, de investimento privado, ao Estado compete apenas criar condições para as deixar nascer e crescer. Tudo o que seja contrário a isto não serve para a região. E não servindo para a região, por maioria de razão, não serve ao País.

Mas estamos a tempo. Ainda é possível aproveitar o clima favorável de um certo optimismo e algum crescimento, para que o Estado cumpra o seu papel e passe a olhar para o Baixo Alentejo como uma região por explorar em variadíssimos sentidos, como económicos, sociais ou culturais. Para isso, apenas, a coisa pública, não deve estancar o investimento. Deve impulsionar, ajudar e cumprir com o seu papel democrático de justo facilitador. Eu, pelo menos, penso assim. O que não é sinónimo do Baixo Alentejo deixar de gerir a sua agenda setting a sua comunicação aos alvos certos, de acordo com as suas necessidades, no sentido que mais lhe convém, fazendo cumprir os seus objectivos. Digo isto porque, mesmo em termos de Turismo, a promoção do Baixo Alentejo não deve estar encaixada numa amálgama de regiões de turismo, o que impossibilita uma estratégia de comunicação clara, objectiva e criativa em torno da oferta real e exclusiva do Baixo Alentejo. Seria chegado o momento de investir numa comunicação independente de uma região Única. Com identidade própria. E de valor incalculável. Uma marca que é preciso assumir, promover e valorizar. O Baixo Alentejo é um diamante em bruto.


Beja é uma cidade com um património material e imaterial incrível, de onde são oriundos imensos talentos, seja na sua área, na música, na moda, na comunicação, na gastronomia, na gestão, etc. Considera que esse património com o qual crescemos poderá ter influência no percurso destes talentos? Beja será um pólo a explorar pela criatividade, já que oferece uma alma única, paz, tranquilidade e paisagens inspiradoras?

Sem dúvida. Beja tem uma identidade muito própria, uma alma que desde sempre tem sido geradora de inúmeros artistas em tantas áreas (e aqui vou poupar-me a enunciá-los, uma vez que somos muitos e poderia esquecer-me de algum). Existe um sonho que partilho com alguns amigos de Beja, e que era ver nascer na cidade uma “fábrica” de artes. Que pudesse acolher todas as manifestações artísticas. Não só aquelas que já são Património da Humanidade, ou as outras mais conhecidas, mas todas as demais. Uma escola de referência que trouxesse gente de outros países, que fosse um modelo internacional, e que levasse o nome de Beja pelo mundo fora como exemplo e forma de inspiração. Isso poderia tornar-se realidade, por exemplo, na antiga Fábrica de Moagem de Beja, perto do Parque Industrial, e que agora, com a requalificação da Rua da Lavoura, foi aproximada da cidade. Um descomunalmente elegante edifício industrial do séc. XIX, com o típico charme vintage, e a pedir desesperadamente que não o deixem cair por terra. Ou ainda na antiga Metalúrgica Bejense. Património arquitectónico e social que merece ser posto salvo e valorizado.

Sobre o edificado histórico, sabemos bem a riqueza do património material existente na cidade e concelho, desde os confins dos tempos. Uma chamada de atenção para os espólios arqueológicos de estruturas sociais milenares, que se encontram sob os barros de Beja, e que têm vindo a ser dizimados por proprietários de terrenos agrícolas, sem haver até ao momento nenhuma sanção exemplar pelos vários crimes de lesa-pátria que têm vindo a ser perpetrados. Mas bom seria, também, que se não deixassem morrer projectos arqueológicos de valor patrimonial único, como o Templo Romano, ou a Casa da Moeda, ambos na rua com o mesmo nome, no coração da cidade, e se continuasse a apostar noutros. Se existe dinheiro bem empregue é nesta forma de investir. Que valoriza a cidade, ao invés das tantas vezes preferidas obras de fachada. Só assim, mais tarde, Beja se pode afirmar como destino de um turismo cultural, informado e com poder de compra. Com vários pólos museológicos e monumentais espalhados pela cidade, um novo tipo de comércio, impulsionado por uma nova fórmula de turismo, poderia florescer. Bom seria, ainda, que de uma vez por todas, o património religioso e monumental da cidade pudesse ser visitado por turistas nacionais e estrangeiros, mas também por Baixo-alentejanos, sem se esbarrar com o nariz em portas invariavelmente fechadas. Se trancamos a riqueza dentro de quatro paredes e isolada dos nossos olhos, do nosso espírito, ficamos todos mais pobres. Porque não aprendemos com ela, não nos deixamos inspirar, não registamos nem partilhamos essa riqueza e não alimentamos o espírito. E gente pobre de espírito é gente que se torna perigosa. Porque alheia e desinteressada. Logo desistente e descrédula.


Falando de descentralização e regionalização, temas quentes no momento, será o Baixo Alentejo um território com condições para fazer face a essa regionalização?

Sim. Definitiva e obrigatoriamente. A propósito deste tema, elogio a ideia do deputado socialista eleito por Beja, Pedro do Carmo, de unificar a CIMBAL -Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo e a CIMAL - Comunidade Intermunicipal do Alentejo Litoral. A ver vamos se, de acordo com o mesmo, a questão irá ser "colocada brevemente em cima da mesa". O Baixo Alentejo só teria a ganhar com essa unificação. Apenas pelo facto de o Baixo Alentejo ser uma região com uma identidade própria. E de o Alentejo Litoral ser historicamente parte desta região até um dia ter sido alvo de uma disruptiva e contranatura divisão, ou subdivisão administrativa de um Alentejo cuja identidade tem vindo a ser espartilhada, dividida, e mutilada. No meu entender existem tão só dois Alentejos: o Alto e o Baixo. Tudo o mais não tem passado de um conjunto de experiências administrativas completamente inócuas que apenas tiveram como resultado desunir as duas regiões alentejanas e distorcer a sua identidade. Senão veja-se como é hoje, administrativamente, definido o Baixo Alentejo: sub-região estatística (NUTS III) de Portugal. Nem na nomenclatura existe dignidade.

Apesar de não ter dúvidas de que, por variadíssimas razões, o Baixo Alentejo tem todas as condições para se afirmar como uma região administrativa num futuro mapa nacional de regiões, não sou um defensor acérrimo da regionalização. Aliás, votei contra ambas as questões propostas no referendo sobre a Regionalização que este Novembro assinala vinte anos. Neste âmbito posso bem mais afirmar que me considero um “distritalista”. Sou partidário da descentralização por distritos. É um tipo de organização administrativa mais justa e democrática, com enraizamento histórico e percepção social, e que permite a continuidade de investimento em cidades de média dimensão, ao invés de, como tem acontecido, se apostar cirurgicamente em cinco cidades nacionais, relegando todas as restantes para mera paisagem árida. Desta forma nunca se conseguirá combater a litoralização do País e o despovoamento do interior. O País é constituído pela diversidade. Não podemos ter uma aldeia abandonada como opção a viver numa dessas cinco cidades altamente desenvolvidas. E quem não perceber que é esse o rumo que esta organização administrativa está a levar, então não está a olhar para o País com olhos de ver. Só com a atribuição de mais poderes, competências, e capacidade orçamental, as cidades - sejam elas sedes de Distrito, de Concelho, ou de Freguesia - podem desenvolver-se pelo seu mérito, pelos seus recursos, e pelo empenho das suas gentes. Tudo o resto é falsificar a palpitação do interior Nacional.

Contudo, e apesar do chumbo categórico conferido pelo País à regionalização administrativa, tal como esta foi proposta, a política seguida pelos vários governos tem sido justamente a contrária. Sem haver ninguém que grite bem alto que esse caminho não é consentâneo com a vontade manifestada pelos portugueses em sede própria. E Beja e o Baixo Alentejo têm sido vítimas centrais dessa política de desmantelamento territorial que urge travar e reverter.

Para se ter a percepção do contexto do Baixo Alentejo no todo nacional, é necessário conhecer alguns valores em termos demográficos, geográficos e de produtividade. Em termos absolutos, o AA (Alto Alentejo + Alentejo Central) conta com 13.623 km², ao passo que o BA (Baixo Alentejo + Alentejo Litoral) integra uma área de 13.814 km². Equivalem-se, portanto, em dimensão territorial, as duas regiões alentejanas. No que concerne à população, o BA conta 227.587 habitantes (censos de 2011), tendo o AA outros 285.058. Estes cerca de 50.000 habitantes de diferença são já o reflexo das políticas dos últimos anos, que têm afastado as populações do Baixo Alentejo, obrigado a elevadas taxas de migração e emigração, ao passo que os investimentos verificados no Alto Alentejo têm resultado na capacidade de atracção e retenção populacional nessa região.

Contudo, segundo o jornal de Negócios, e de acordo com um estudo levado a cabo há menos de um ano e meio, “o Alentejo Litoral é a região portuguesa com o nível mais elevado de produtividade do País, tendo ultrapassado Lisboa em 2014.” Os motivos estarão relacionados com desenvolvimento do complexo portuário de Sines e, em especial, da refinaria. Os dados foram revelados pelo Instituto Nacional de Estatística, sendo o factor produtividade calculado através da relação entre o PIB e o emprego. Ainda de acordo com o mesmo jornal, constata-se que o Baixo Alentejo é a terceira região mais produtiva do País, logo depois de Lisboa, com 109,5% ou seja, bem acima do todo nacional, enquanto o AA (Alto Alentejano e o Alentejo Central) se situam a meio da tabela com 92,3%, portanto abaixo do todo nacional. Desta forma facilmente se constata que um Baixo Alentejo “unificado” tem todas as condições para ser uma Região Administrativa, caso o País opte por este caminho. A região manter-se-ia à frente da de Lisboa, em termos de produtividade, sendo a líder de todo o País, atraindo a si quer mais investimento privado, quer mais atenção por parte do investimento público.


Supondo que a instalação de algumas empresas determinantes para o desenvolvimento da região dependia do seu parecer, quais seriam as mais-valias por si enunciadas para a fixação dessas empesas em Beja?

Quando eu era adolescente existia um jogo de computador muito famoso, e de que gostava muito, chamado Simcity. Era um jogo de simulação, no qual o jogador construía e administrava uma cidade. E que características eram precisas para fazer crescer sustentadamente a cidade? Pois bem, na prática as mesmas que, hoje em dia, são necessárias para fazer crescer uma cidade verdadeira: cuidados de saúde, meios de protecção civil, casas e prédios onde as pessoas possam viver, infantários, escolas e universidades, estradas, comboios, aeroporto, fábricas, lojas e instituições bancárias, hotéis, jardins e zonas verdes, espaços desportivos… enfim. O jogador que conseguisse este sistema básico de funcionamento conseguia fazer da sua cidade uma comunidade exemplar com toda uma estrutura funcionante, segura, confortável e auto-suficiente para os seus habitantes. O sucesso do jogo devia-se a essa relação estreita com a realidade.

Em bom rigor Beja precisa dessas características, dessas mais-valias, para se afirmar como uma cidade inteira. Se existir indústria aumentam os postos de trabalho, diminui o desemprego e surgem oportunidades de trabalho, primeiro para os residentes, e mais tarde para gente de fora, o que enriquecerá o seu tecido social, que comprará no seu comércio tornando-o mais robusto, que terá filhos a estudar nas suas escolas, que pagará mais impostos à cidade, que poderão ser utilizados para levar a cabo investimentos que gerem qualidade de vida e a atracção de mais gente, incluindo turistas, o que obriga a que o parque hoteleiro cresça e atraia mais turistas que aqui gastarão dinheiro e levarão, pela palavra, o nome da cidade ainda mais longe. A propósito diga-se que a oferta de camas em Beja é imensamente escassa para as necessidades. A taxa hoteleira da cidade  do concelho cifra-se perto dos 80% anuais. Ou seja, juntando épocas alta e baixa. O que prova que existe falta de oferta hoteleira. No passado mês de Março, a cidade recebeu a WorldSkills Portugal, o Campeonato Nacional das Profissões, que contou com 400 jovens altamente qualificados, transformando a cidade numa plataforma de competências. Toda esta gente foi dormir a Évora, por falta de oferta hoteleira na cidade.

Beja precisa de saber dar resposta a todos quantos nela se queiram fixar. Seja que sector de actividade for. Mais até do que esperar por receber propostas, seria útil a criação de uma “embaixada móvel”, e fora da cidade, que se antecipasse e chegasse aos potenciais interessados antes mesmo destes pensarem em Beja. Isto implica estudos de tendências de mercado empresariais e industriais. Há empresas que se dedicam exclusivamente a trabalhar nesta área. Chama-se “pensar à frente”. Chegar primeiro. É caro? Demora tempo? Seguramente que sim. Mas é um investimento que pode ser fundamental. Veja-se o exemplo do alto desenvolvimento turístico que Portugal vive desde há uns anos a esta parte. Não foi por acaso, nem tão pouco se ficou a dever a uma conjuntura externa mais favorável. Como alguém disse, houve gente que trabalhou muito bem, e durante muito tempo, para se chegar a este ponto de franco sucesso. E isso pode, e deve, ser um exemplo.


O Baixo-Alentejo vale a pena! – Quer comentar esta frase?

Vale. Vale muito. Pelas pessoas que tem. Pelas gentes que testemunharam um Portugal duro, austero e sem oportunidades, anterior a 74. Que quiseram acreditar que tudo iria mudar para melhor, mas cujas esperanças foram sendo goradas ano após ano, década após década. Toda esta gente, mais idosa, contribuiu com quase tudo o que tinha, e muitos pouco mais do que o seu trabalho braçal, a sua resiliência, de sol a sol, para o bem do País. Esse mesmo País não lhes pode virar costas. Nem a esses, mais velhos, nem aos seus filhos, muitos deles emigrados fora das nossas fronteiras, senão as do País, as do seu distrito. E tantos querem um dia poder regressar. Com os filhos que apenas já muito ao longe sabem que os pais, ou os avós, eram Baixo Alentejanos.

Por todas essas gerações deprimidas que tiveram de partir, ou não tendo sequer essa oportunidade não lhes restou senão ficar e esperar o que começa a fazer-se demasiado tardio. As oportunidades, os direitos, que justamente os restantes portugueses já experimentaram, ou começam a experimentar. Beja e o Baixo Alentejo não podem baixar os braços. Temos de lutar, unidos, independentemente de convicções pessoais e políticas, porque este é um desígnio demasiado forte. Sob pena de perdermos o berço e o lar das nossas famílias e da nossa história.

O Estado tem de terminar a A-26. Tem de requalificar o IP8. Mas também tem de olhar para todo o interior do Baixo Alentejo. Não basta dizer que se cumpriu Alqueva. Esse mesmo empreendimento foi projectado como uma das laterais de um tal “triângulo estratégico”, que compreendia ainda o Aeroporto de Beja e o Porto de Sines. Tudo isso tem sido desfeito. Sines cada vez mais desviada para norte, o Aeroporto apenas a muito custo, e com grande intervenção do Movimento BMM, começa agora a acordar da letargia.

O Hospital de Beja, mas o de Serpa, e o de Santiago do Cacém, e as demais unidades locais de Saúde espalhadas pela região não podem, pura e simplesmente, desaparecer para que, com esse desinvestimento se venha a financiar um mega hospital em Évora. Que está apenas a uma hora de Lisboa. Isto representa a total distorção geográfica do mapa nacional. A grande Lisboa conta com largo número de hospitais de grande porte em toda a sua periferia. Construir o mega hospital de Évora é redundar investimento do erário público. 120 milhões. E ao mesmo tempo significa desistir de Beja, Serpa, Sines, Portalegre, bem como do restante interior. Vai secar tudo à sua volta. Isso mesmo defendeu até à exaustão o anterior Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva.

A linha electrificada é necessária de Beja a Lisboa, de forma directa. Mas também de Beja para a Funcheira. O comboio é um meio de transporte de futuro. Não poluente, rápido, seguro, fiável e confortável. A população está cansada das mentiras do Ministro do Planeamento e Infra-estruturas. Primeiro disse que haveria um investimento em material circulante bi-modal. Depois veio dizer que não seria para já. E finalmente afirmou que nem em 2030. E porquê? Porque se as políticas se mantiverem no caminho que está a ser seguido já não haverá na região gente com capacidade de luta em 2030. E assim poderá fechar-se a linha de forma mais descansada e com menos polémicas. E depois, o vazio. Mas uma coisa é certa: o Movimento BBM não vai parar a luta por Beja e pelo Baixo Alentejo. Venha quem vier, demore o tempo que demorar, juntos vamos conseguir! Beja Merece Mais! O Baixo Alentejo Merece Mais!

 

 

 

"Quando nos recusamos a tomar decisões comuns, alguém as tomará por nós"

João Espinho

Blogger | Praça da República

João Espinho é autor e editor do Blog Praça da República, um blog independente, que se debruça, entre outros, sobre assuntos do Concelho de Beja e da Região, um espaço aberto, de debate, de partilha de pontos de vista, onde se comenta livre e moderadamente o que vai acontecendo. É nesta qualidade que convidamos João Ferraz Espinho a fazer parte deste espaço de reflexão intitulado “Alentejo, um amanhã reinventado”.

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Urge fazer uma revolução de mentalidades. E para isso, não há executivo, municipal ou outro, que nos acuda. Somos nós, bejenses, que temos que mudar. Amanhã já será tarde.




Na sua opinião o que falta acontecer no Alentejo e no distrito de Beja, em particular, para vivermos o tão almejado progresso económico e social?

Em primeiro lugar, parece-me que estão por cumprir as promessas que, ao longo de décadas, nos têm sido, sucessivamente, apresentadas pelos governantes, quer da cidade quer do país. Desde que há eleições democráticas, tudo o que é de bom nos tem sido prometido para alcançarmos o desejado desenvolvimento. Como se pode constatar, não passam de promessas eleitorais que, na hora das decisões, são metidas nas gavetas ministeriais e esquecidas até ao seguinte acto eleitoral.

 

Enquanto cidadão, quais são para si os motivos que conduziram à estagnação da região e ao consequente desânimo por parte de muitos dos seus habitantes?

No seguimento do que disse anteriormente, são também os cidadãos que “deixam” que nada aconteça. Somos pouco interventivos e, muitas vezes, deixamo-nos embalar pelas conversas daqueles que dizem querer representar-nos. Não temos sabido criar sinergias e juntarmo-nos para lutar pelos interesses da região. A divisão das pessoas está enraizada e dela jamais se colherão frutos. A política está mal vista e é encarada por muitos cidadãos como uma maleita da qual se devem afastar. É sabido que, quando nos recusamos a tomar decisões comuns, alguém as tomará por nós.

 

 

Por vezes a força de lobby e interventiva junto do poder central e de grupos económicos, pode fazer toda a diferença no desenvolvimento das regiões. O que se diz na sua “Praça” a este respeito?

O Alentejo foi vítima, após o PREC e a Reforma Agrária, de feridas profundas que teimam em não sarar e muito menos em ser esquecidas. Há uma enorme clivagem, transversal a toda a sociedade alentejana, decorrente das lutas travadas após o 25 de Abril. O exagero de algumas reivindicações, a ocupação e posterior devolução de terras e imóveis, criaram um enorme fosso entre vários grupos de cidadãos e que tem acompanhado várias gerações. São, como disse, feridas profundas que, talvez, tendam a sarar nas próximas gerações. Ora, uma sociedade dividida, não tem força e perde capacidade para fazer lobby. Daí que, onde essa clivagem não seja tão evidente, os cidadãos tendam a unir esforços e a saber como fazer pressão sobre os decisores governamentais.

 

 

Sendo que o investimento público é sempre determinante no desenvolvimento, considera que a região de Beja poderá alavancar um futuro com base em investimento privado, em áreas específicas?

Beja e a região têm vivido, eternamente, à espera dos milhões de euros vindos dos cofres do estado, como se tal fosse a salvação para o evidente definhamento do interior sul do Alentejo. Como mais adiante tentarei explicar, o investimento público é de primordial importância, mas não podemos estar à espera que o Estado venha aqui depositar os ovos doirados, pois a distribuição dos dinheiros públicos deve assentar numa visão global do território e não pode servir para criar mais assimetrias. Daí que o investimento privado é crucial para que se possa desenvolver a região. Diria mesmo: Não sairemos do marasmo sem empresas privadas dinâmicas que, emparelhadas com o investimento público, possam, realmente, servir de trampolim para o desejado desenvolvimento.

 

 

No distrito de Beja assiste-se a um aumento do número de empresários dinâmicos e empreendores. Considera que o caminho percorrido até agora é suficiente,  ou será que  neste campo também temos ainda muito caminho a percorrer?

Ser empresário no distrito de Beja, ou em qualquer outro distrito do país, é, sem dúvidas, uma tarefa enorme e desgastante de energias. Existem labirintos incontornáveis que, por um lado, impedem que alguém se arrisque a pôr de pé um projecto empresarial e, por outro, vão sugando dinheiros que poderiam ser utilizados na criação de empresas. Ouça-se qualquer empreendedor para se perceber como a teia burocrática é desanimadora, levando muitos a virar costas e a procurar outras paragens onde, cumprindo as exigências legais, os “compadrios” não asfixiam os desígnios de criar novas empresas.

 

 

Instalou-se a ideia de que o desenvolvimento da região está dependente, sobretudo, da melhoria das acessibilidades rodoviárias e ferroviárias. Na sua opinião e no geral da sua “Praça da República” será só isto que está a travar o crescimento?

As acessibilidades são essenciais. Uma boa rede de estradas e uma ferrovia electrificada, são exigências que não podemos, de forma alguma, descurar. A luta por melhores estradas e comboios deve ser diária e temos que reinventar essas formas de luta. A cidade de Beja tem vindo, ao longo dos tempos, a perder massa crítica, gente que tenha novas ideias e sugira novos procedimentos reivindicativos. O movimento Beja merece+ tem as suas virtudes mas padece de uma apatia e inércia, muito características dos bejenses. Sendo um movimento que vive de forma pouco organizada, está sujeito aos sabores do tempo e dos impulsos temporários de alguns cidadãos. O movimento bate-se por melhores acessibilidades e pela efectiva rentabilização do chamado aeroporto de Beja. São, indiscutivelmente, objectivos primordiais, mas não lhe reconheço, até ao momento, qualquer peso negocial ou mesmo capacidade para ser lobista.

 

 

Viveu algum tempo fora de Portugal, embora num país comunitário, olhando para outras realidades. Que reflexão faz relativamente ao que a região tem para oferecer aos  potenciais investidores, portugueses ou não, que possam ajudar no crescimento e desenvolvimento de uma zona do país, que aparentemente tem tudo, mas onde o tempo tem teimado em ficar quase parado?

Durante os 4 anos que vivi na Alemanha, vinha regularmente a Portugal, e obviamente a Beja, e espantava-me o súbito enriquecimento das gentes e da quantidade de estradas (auto-estradas) que se construíam por todo o lado. Eram os tempos gloriosos dos fundos europeus que davam para comprar novos carros, novas habitações, casas de férias, etc…

Porém, a região não estava a beneficiar dessa “riqueza”, os investimentos para impulsionar economicamente o Alentejo eram quase inexistentes. Na Alemanha avisavam-me: com a entrada de Portugal na moeda única, o país não se vai aguentar e, mais tarde ou mais cedo, esse enriquecimento vai inverter-se, dando lugar a graves problemas financeiros. O resto da história já nós conhecemos. Em Beja gastaram-se milhões para esventrar a cidade, para a descaracterizar, foi o Pólis, e no fim, quem beneficiou com todas essas obras? Está à vista que não foi nem a cidade nem a região. Não se soube ter uma visão estratégica de longo prazo optando-se por obras de gosto duvidoso (Praça da República, Jardim do Bacalhau, Avenida Miguel Fernandes), esquecendo que à nossa volta há todo um mundo rural a necessitar reconversão. Simultaneamente, o Instituto Politécnico pareceu-me que foi perdendo dinâmica, mas continua a ser uma das principais, se não a principal, a par do Hospital, instituições do Distrito. Duas instituições que, a meu ver, têm sido muito maltratadas, quer pelos poderes quer pelos cidadãos.

 

 

Sendo a Praça da República de Beja o local, por excelência, das decisões relativas ao Concelho de Beja, já que é lá que se situa a Câmara Municipal, e sendo a “Praça da República” o blog mais exposto às condições regionais, que sugestão faria ao executivo Municipal e ao executivo Nacional, no sentido de conferirem ao Distrito de Beja as condições para um reinventar do Baixo-Alentejo, onde todas as condições que temos, possam de facto ser potenciadas?

O novo executivo camarário tem uma enorme tarefa à sua frente: inverter o caminho do isolamento, transformar o evidente definhamento numa nova centralidade, afirmando Beja como efectiva capital de Distrito. Deverá, em primeiro lugar, olhar para as pessoas, para os munícipes, sendo o seu representante junto de um poder central que teima em nos ignorar. O Baixo-Alentejo tem uma infinita riqueza, desaproveitada, ou mal direccionada, e é isso que tem de ser tido em conta pelos novos decisores que têm assento na praça da República. O Centro Histórico da cidade morreu e muito dificilmente ressuscitará sem pessoas. Têm que ser criadas condições para, por um lado, tornar o CH habitável e, por outro, mais favoráveis às empresas que aqui se querem instalar e investir. O definhado comércio local tem que se reinventar, pelo que a Câmara, com as ferramentas disponíveis, deverá auxiliar esses comerciantes a renovar os estabelecimentos, retirando-lhes encargos, permitindo-lhes investir nessa renovação. Mas, e termino aqui, urge fazer uma revolução de mentalidades. E para isso, não há executivo, municipal ou outro, que nos acuda. Somos nós, bejenses, que temos que mudar. Amanhã já será tarde.

 

"O potencial de desenvolvimento que a actividade cinegética pode trazer ao Baixo Alentejo é extradordinário"

O Alentejo é por excelência a região do país que mais atrai os amantes da caça. A sua regulamentação e a organização, daí decorrente, conduziu ao aparecimento de bastantes reservas de caça com uma gestão “profissionalizada” e dinâmica, que tem contribuído para um movimento crescente em direcção a sul, sobretudo nas épocas de “pico”.

Convidámos hoje, para fazer parte do nosso painel, alguém profundamente conhecedor do mundo cinegético e que, connosco, fará uma reflexão acerca do peso desta componente, num Alentejo que se quer no caminho do desenvolvimento. José Manuel Graça dedicou a maior parte da sua vida activa à Banca, tendo sempre, em paralelo, devotado uma grande dedicação ao mundo da caça, actividade que lhe ocupa hoje a maior parte do tempo.



 

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1 – A sua paixão pela actividade cinegética leva-o a ter um vasto conhecimento desse mundo, que não tem partidos políticos nem clubes de futebol. Pode caracterizar-nos a actividade da caça actualmente?

A caça divide-se em dois tipos – maior e menor. Da caça maior fazem parte essencialmente os cervídeos, cujas populações crescem significativamente, e os javalis, que em determinadas zonas registam igualmente  um crescimento considerável, até em territórios que não eram comuns no seu habitat. Nos locais onde outrora abundavam, têm vindo a ser substituídos pelos veados, sendo que, e fruto da minha observação e experiência de campo, considero que estas duas espécies têm dificuldade em coabitar.

No que respeita à caça menor, composta por exemplo por perdizes, pombos, tordos, rolas, coelhos e lebres, entre outros, enfrentam-se algumas dificuldades, directamente  relacionadas com o seu repovoamento e que passo a explicar: “fazer perdizes” no campo é neste momento, praticamente impossível. Porquê? Porque existem espécies que impedem o seu crescimento e desenvolvimento, tais como as raposas, os saca-rabos os ginetes, em terra, e mais recentemente, por via aérea, as cegonhas, as garças brancas, as pegas, os corvos e os rabilongos, aves que dizimam os ovos e os perdigotos, e que se reproduzem a uma velocidade tal, que poderão assumir a figura de praga. Quanto à rola comum, não será possível um aumento da espécie enquanto não for autorizado o abate da praga da rola turca, que não coabita com outras, para além dos seus tradicionais “inimigos” (pegas, corvos, rabilongos e águias). Ultimamente  verifica-se  um crescimento significativo de uma outra espécie “ameaçadora”, e protegida – o corvo marinho - que dizima as barragens e ribeiras e a sua fauna piscícola, protegida por muitos ambientalistas.



2 – Existem no Alentejo bastantes reservas de caça, com características diferentes, mas com um número crescente de “adeptos”, sobretudo oriundos de outras regiões. Considera tratar-se de uma actividade que tem em si o poder de potenciar um desenvolvimento turístico para o Baixo Alentejo, embora direccionado?

O potencial de desenvolvimento que a actividade cinegética pode trazer ao Baixo Alentejo é extradordinário. Como principais factores menciono o clima, o tipo de reservas de caça, a orografia dos terrenos, as infraestruturas criadas, e obviamente a característica arte de bem fazer e de bem receber na região.  No entanto, lutamos com algumas dificuldades que limitam uma aposta maior no turismo cinegético estrangeiro, e que passo a explicar: conhecendo as regras da caça na Europa, onde frequentemente caço em países como a Dinamarca, Inglaterra, Escócia, Irlanda a Espanha, e tendo conhecimento da dificuldade em transportar armas de caça por avião, existindo inclusivamente companhias aéreas que não permitem o seu transporte, considero extremamente difícil conseguirmos conquistar o caçador estrangeiro. Porquê? Porque a actual lei das armas afasta de imediato a vontade das empresas organizadoras de caçadas, em promover a sua realização no nosso país, por não existir a figura do esmpréstimo de armas. Por um lado, o custo das Licenças é superior a qualquer um dos países que mencionei (125 euros/ano ou 65 euros/mês). Mas nem é este o principal factor. É-o sim, o transporte das armas, que torna moroso o check-in (cerca de duas horas a mais), sendo que também os critérios diferem de país para país, e inerente orgânica policial, tornando os aspectos burocráticos extremamente complexos. Existe ainda uma componente financeira, pois todo o serviço de legalização no transporte de armas de caça é pago através de taxas várias, que diferem entre as companhias aéreas. Por outro lado, existe uma outra condicionante, que é a obrigatoriedade da utilização  do cadeado de gatilho. Em nenhum dos países onde caço é utilizado, e nem se compreende o porquê desta imposição, pois os acidentes de caça decorrentes do seu uso são muitos, e infelizmente, bastantes vezes, fatais. Basta que o caçador se esqueça que deixou no cano da arma um cartucho ou uma bala, e ao guardar a arma na bolsa, o cadeado prima o gatilho. A responsabilidade individual tem forçosamente que existir na prevenção dos acidentes ligados à caça, mas este “adereço”, usado apenas em Portugal, na minha opinião, não vem conferir  acréscimo à segurança,  estando provado que potencia esses mesmos acidentes.



3 – É uma pessoa viajada e conhecedora da actividade noutros países. Estabelece algum paralelo com algum ou alguns deles, ou pelo contrário, considera estarmos ainda num patamar bem distante?

A resposta a esta questão entronca na anterior. Estamos muito distantes de outros países, quer nas práticas, quer na legislação vigente. Posso dar como exemplo a Inglaterra e a Escócia, países que se debatem com problemas de terrorismo bastante maiores do que nós. Nestes países, as empresas que organizam caçadas para estrangeiros, podem alugar armas para essas mesmas caçadas, evitando o seu transporte, bastando para tal enviar o cartão europeu de uso e porte de arma, com um mês de antecedência relativamente à data da caçada, para que a Scotland Yard avalie se o caçador tem ou não cadastro, e dar a respectiva autorização.  Desta forma, o caçador, além de não ter que se deslocar com as suas armas, tem ainda à sua disposição 8 a 10 tipos de armas de caça diferentes.

 

4 – Na sua opinião, o que falta fazer, ainda, para que a actividade cinegética possa considerar-se uma fonte de receitas e que, de alguma forma, possa contribuír para o desenvolvimento da economia local?  

Em primeiro lugar, e decorrente das respostas anteriores, considero ter forçosamente que existir uma alteração da legislação vigente, agilizando aspectos fundamentais para a atractividade do caçador estrangeiro, mantendo, evidentemente as questões de prevenção do terrorismo. Muitas vezes as leis são feitas por quem apenas está sentado numa secretária, sem ter perfeito conhecimento da actividade e do terreno, e das regiões em particular.  O legislador, deve saber de leis, mas deve igualmente estar informado, conhecer, e pisar o terreno, já para não falar do diálogo e negociações com as entidades responsáveis ligadas ao mundo cinegético.

Por outro lado, todos sabemos da existência dos lobbys fundamentalistas, fortíssimos e anti-caça. Fazem uma grande divulgação dos seus princípios nas redes sociais sem conhecer o campo e a natureza. Por vezes tecem afirmações menos correctas. Lembro-me, por exemplo, e muito recentemente, de uma entrevista a um responsável da Quercus por ocasião do aniversário da Ponte Vasco da Gama, onde ao ser questionado acerca da duplicação da população de flamingos nos últimos 20 anos, na zona da ponte,  prontamente respondeu que se a ponte não existisse, não sabia se essa população não teria triplicado ou quadriplicado … (utilizando um pouco de ironia, seria preferível não existir ponte, mas sim uma praga de flamingos?!...)

Ainda no campo da protecção da natureza, refiro de novo o corvo marinho.  Esta ave pesca/caça de tal forma assertiva, que dificilmente alguma espécie menor lhe escapa. Sublinho que estão aqui incluídas as rãs, pardelhas, saramugos e bordalos, que são espécies piscícolas quase em extinção e muito protegidas pelos ambientalistas. Acresce que existem concentrações de corvos marinhos em número superior a vinte em pequenas barragens, que acabam por dizimar a fauna piscícola.  Há que proteger a natureza sim,  mas há que ter uma visão global, e não catalogar os verdadeiros caçadores como matadores, pois são o campo e a natureza que ficam prejudicados.


5 – Considera que a região de Beja e do Baixo-Alentejo, em geral, tem condições para que se pense na actividade cinegética directamente ligada a um turismo específico, que possa traduzir-se em investimento e desenvolvimento?

Como já atrás referi, considero a região de Beja com um excelente potencial de desenvolvimento turístico, pese embora as alterações necessárias. Se esse turismo existir, terá qualidade, cultura própria, e a seu tempo poderá interferir com novos investimentos e infraestruturas, nomeadamente por parte de investidores privados.

 

6 – Se lhe fossem conferidos cinco minutos num programa televisivo para  dar a conhecer a região e o seu potencial de investimento, quais seriam as suas principais preocupações?

Defendo o campo e o Alentejo com a paixão de quem vive e se dedica a tempo inteiro a esse mesmo campo.  Os factores para investir são sobretudo o clima, a localização, a possibilidade de desenvolver infraestruturas, a cultura e a vontade de fazer por parte dos residentes.  Se forem concedidas condições para adequar os projectos de investimento, seja qual for a área, à realidade socio-económica da região, não descurando nunca as suas características inatas, considero estarem reunidas as condições para qualquer investidor poder fixar-se.

 

 

 

"A Vontade não vem nas leis nem nos orçamentos, mas é quem move montanhas"

 

Beja insere-se numa região essencialmente agrícola, onde a implementação do projecto “Alqueva” veio trazer uma nova dinâmica e uma nova realidade aos campos e às explorações  agrícolas. Com a mudança de paradigma e de culturas, existiu a necessidade de adaptar os modelos de gestão, por um lado, e por outro sentiu-se a necessidade de uma crescente especialização e profissionalização, quer por parte dos empresários, quer por parte dos técnicos afectos a essas explorações. A agricultura/empresa é hoje uma realidade e os investimentos efectuados  têm forçosamente que estar em linha com os objectivos propostos. Formar empresários agrícolas de sucesso requer muita dedicação e profundo conhecimento em várias áreas.

 

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O nosso convidado de hoje é alguém que embora com formação e vasta experiência na área, não estagna e tem como princípio “andar um passo à frente”, por forma a conseguir imprimir as melhores práticas na exploração de que é gestor. Rui Veríssimo Baptista gere a Conqueiros Invest, uma exploração agro-pecuária familiar, com vários polos.

 

 

Ou se “provoca” o crescimento ou se deixa apenas o crescimento ao dinamismo do investimento privado.

 
Sem dúvida que Alqueva transformou muitas vidas e muitas explorações agrícolas. Na sua opinião, o Baixo-Alentejo é neste momento uma região onde se deve apostar fortemente em termos agrícolas? Porquê?

 

Em primeiro lugar importa precisar que o Alqueva abrange uma parte do Baixo Alentejo (BA). Há um outro BA, o não regado, maior em área que o regado. E este “outro” BA, por comparação com o beneficiado pelo Alqueva, é parte da resposta à pergunta.

A agricultura de regadio é sempre um motor de desenvolvimento dos territórios. Está a ser assim no Alqueva como foi assim noutras regiões onde o regadio chegou. A escala e modernidade do empreendimento do Alqueva veio dar uma dinâmica económica ao território distintiva, que muito dificilmente outro setor poderia proporcionar. Aliás, o passado assim o demonstra.  A Agricultura de regadio, pelo nível de investimento e especialização que está a atingir irá, naturalmente, proporcionar a instalação de novas indústrias, com o agroalimentar à cabeça, comportando-se assim como a locomotiva do desenvolvimento do BA. 

Contudo, há o outro BA, onde o investimento no setor agrícola é inevitável, porque a ocupação do território assim o exige, já que não há outro setor que lhe valha. Neste caso, o investimento terá naturalmente de ter uma filosofia diferente, e inevitavelmente alicerçado em políticas publicas. Porque se tratam de investimentos com retornos financeiros mais débeis e, portanto, de risco mais elevado, o investimento publico deverá ser desenhado com vista a promover rendimentos justos aos agricultores, assegurando desta forma a manutenção da atividade, e consequentemente, a sustentabilidade económica, social e ambiental destes territórios. As politicas publicas de apoio ao rendimento jogam aqui um papel fundamental.

Em suma a resposta é claramente sim.

Que paralelo estabelece entre o investimento privado efectuado nas imensas explorações que conhecemos e o potencial de desenvolvimento da região?

 

Cingindo-me à zona do Alqueva, entendo que este investimento é o paradigma do que deve ser o desenvolvimento de uma região e que define claramente o que significa investimento publico de qualidade. O estado investiu na criação de infraestruturas e os privados investem em consequência dessa infraestruturação. Ou seja, o bom investimento publico o que fez foi potenciar o potencial da região, tornando mais rentável, e por isso mais atrativo, o investimento privado. Neste caso, em particular, a água veio colmatar um dos grandes entraves à agricultura desta região de clima mediterrânico.

O Agricultor, como qualquer outro empresário, investe onde se sente seguro, o mesmo será dizer, onde veja rentabilidade financeira e risco controlado.  O Alqueva veio precisamente “fabricar” esta realidade.

 

Considera que o investimento público, em geral, é adequado ao crescimento agro-industrial que se verifica, ou existirá um longo caminho a percorrer até que estejam reunidas as condições para uma real e proporcional conjugação de valores investidos e a investir?

A Agroindústria é fundamental porque valoriza a cadeia agropecuária, sendo por isso uma grande mais valia para a região. A agroindústria significa mais investimento, RH mais qualificados, maior inovação, melhores empregos etc.. É uma consequência natural do desenvolvimento numa região agrícola. Havendo produção ela vai aparecer. Contudo o seu aparecimento poderá ser “provocado” mediante politicas públicas assertivas.

Estas politicas deverão ter um foco muito orientado, por exemplo, nas infraestruturas de transporte, para escoamento competitivo dos produtos (não esquecer que estamos na ponta da europa), na politica de formação, as empresas procuram mão de obra qualificada, e na politica fiscal, para promover, também por esta via, vantagem competitiva face a outras regiões, quer à escala regional, quer nacional, ou mesmo internacional.

Conforme referi, a agroindústria irá aparecer com maior intensidade, porque será inevitável, tendo em conta o investimento na produção a que estamos a assistir. Mas de facto, ela poderia neste momento existir já com uma expressão maior. Tenho a sensação de que pelo facto de se ter construído o Alqueva a administração central parece “sentir” que já cumpriu com a sua obrigação de investimento na região. Por exemplo, há manifestas deficiências nas infraestruturas de transporte, rodovia e ferrovia. Contudo, o governo quando instado sobre a falta de investimento na região, atira para cima da mesa os enormes números do Alqueva. Ou seja, há apenas um discurso contabilístico, não se encontrando uma lógica de planeamento integrado. Aliás, o discurso político enferma deste vício, falam-se de milhões e nunca se fala do resultado desses milhões. De facto, este tipo de discurso é sempre mais fácil,  adapta-se a qualquer realidade e facilita a comparação, porque são apenas euros. Se a minha ideia está confusa, pense-se, por exemplo,  no Aeroporto…

 

O crescimento e o desenvolvimento assentam, além da componente investimento, num capital importantíssimo: as pessoas.  Na sua opinião, quais os caminhos a seguir para conseguir fixar na região o capital humano, técnico ou não, indispensável ao funcionamento das empresas?

O desenvolvimento económico arrasta sempre consigo as pessoas. No caso do Alqueva é possível criar esse dinamismo económico porque está a acontecer sucesso por via do investimento público e privado. Deste ponto de vista as coisas estão a correr bem.

À semelhança das infraestruturas que referi na pergunta anterior, às entidades com influencia no desenvolvimento da região, restam duas opções, ou se “provoca” o crescimento ou se deixa apenas o crescimento ao dinamismo do investimento privado. O facto de Beja não ter provocado o investimento fez com que algumas regiões limítrofes tivessem assumido a dianteira nalguns investimentos estruturantes. A produção está a fazer o seu caminho, é importante instalar em maior escala a agroindústria, porque é um elemento fundamental de criação de valor na cadeia. As pessoas movem-se com a economia e a economia move-se por interesses.  A Camara Municipal poderá e deverá desempenhar um papel fundamental neste processo de captação de investimento porque tem ferramentas, como nenhuma outra entidade na região, como sejam, por exemplo, a fiscalidade e a política de licenciamentos, apenas para falar nas mais importantes.

 

O Rui imprimiu na sua exploração uma gestão de meios e de recursos rigorosa, com uma forte aposta na inovação, na tecnologia, na energia limpa, entre outras. Quer falar-nos um pouco dessa necessidade de transformação que sentiu e dos benefícios conquistados?

O mundo muda todos os dias e quem não se adapta não vinga. Hoje em dia, na agricultura como noutros setores, um líder é fundamentalmente um gestor da mudança. No meu caso particular, a mudança que estamos a operar nas nossas explorações teve a ver com o facto de o modelo de negócios tradicional que tínhamos implementado estar a perder rentabilidade, e isso despoletou a mudança que está a ocorrer, sempre de forma gradual e estruturada. Neste aspeto é muito importante saber distinguir o que é estrutural e conjuntural. A introdução da agricultura de precisão tem sido uma aposta decisiva na adaptação das nossas empresas.

A agricultura de precisão significa mais informação e desta forma decisões mais robustas. Sondas de rega, imagens de satélite, georreferenciação das operações, mapeamento das produções e dos solos, são algumas das ferramentas que apoiam a nossa agricultura de precisão. Através deles é possível melhorar a rentabilidade porque com os mesmos inputs podemos produzir mais porque os utilizamos melhor.

Por outro lado, é igualmente nosso objetivo tornar as nossas empresas com um balanço energético zero. É por isso que estamos a apostar fortemente na produção fotovoltaica.

Queremos a medio prazo ser uma empresa modelo na gestão dos recursos, mas para isso necessitamos renovar o nosso quadro de pessoal. Esta é uma tarefa lenta porque temos uma forte consciência social, e não utilizamos os despedimentos como ferramenta de gestão.

 

Na sua actividade, tal como em qualquer outra, um dos caminhos de quem quer progredir, assenta em parcerias. Estabeleceu já alguma parceria ou acordo de colaboração com entidades regionais que estejam abertas a esses novos modelos de investimento/crescimento? Considera que o futuro da agricultura especializada poderá passar por modelos de parceria?

Não conheço nenhum setor de sucesso, ou mesmo país, em que o seu modelo de desenvolvimento não assente em parcerias fortes. A parceria é a potenciação do conhecimento de cada um e é promotora de confiança. Já hoje, nas minhas empresas, temos parcerias, em especial com os nossos fornecedores de referência. Igualmente, desenvolvemos projetos de investigação com empresas e instituições de ciência no âmbito de programas de financiamento comunitário. Mas reconheço que há um algum caminho a percorrer.  A parceria é muitas vezes entendida como concorrência. Por outro lado, a noção de parceria para alguma industria e distribuição é entendida de forma enviesada, uma vez que há uma diferença negocial muito grande, sendo que a agricultura geralmente incorpora a maior parte do risco. No entanto, à medida que o setor se vai profissionalizando há uma tendência natural para que as coisas vão melhorando.


Numa outra vertente da sua experiência pessoal, o Rui acompanha de perto, e há vários anos, a actividade da Associação Terras Dentro, sediada em Alcáçovas, enquanto Presidente do Órgão de Gestão. Quer falar-nos um pouco da história, pressupostos e actividade desta Associação?

Terras Dentro (TD) nasceu em Alcáçovas no ano de 1991. Deram-lhe origem a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal de Viana do Alentejo e um grupo de cidadãos empenhados no desenvolvimento da sua terra. Nasceu a partir de um programa designado Iniciativa Comunitária Leader I. Esta iniciativa tinha, e tem ainda hoje, um principio fortemente inovador, o de serem as parcerias de cada território a definirem uma estratégia e a decidirem os respetivos projetos, através de uma unidade de gestão constituída por paceiros. Foi em resposta a esta iniciativa que nasceu a TD, como mais vinte associações espalhadas pelo país. O Leader teve mais duas versões, o II e o +, e foi no anterior quadro comunitário integrado no então PRODER. Hoje é uma media do PDR2020. Hoje todo o país rural, continente e lhas, está coberto por associações Leader. Foi um sucesso este programa.

A TD desde a sua criação foi ganhando competências em muitas áreas e hoje desenvolve uma atividade plurifacetada, nomeadamente, no empreendedorismo e animação territorial, na educação e formação, na área do ambiente, da solidariedade (é uma IPSS) e na Cooperação para o desenvolvimento (É uma ONGA – entidade equiparada a organização não governamental de ambiente). Desde 1997 é reconhecida como entidade de Utilidade Publica.

Ou seja, a TD no seu território de intervenção desempenha hoje um papel muito importante junto das populações. Papel muito importante tem que ver com as parcerias, verdadeiras parcerias, que a TD tem construído com parceiros do território.

Como referi, no atual PDR2020, a medida 10 esta destinada às atividades Leader, ou seja, os projetos têm decisão local, através de uma unidade de gestão, da qual sou o presidente. São projetos associadas ao desenvolvimento rural. Para além do presidente há mais 5 entidades representada no Órgão de Gestão, selecionadas de entre os parceiros, rodando em cada 2 anos. Este OG está incumbido de se pronunciar sobre as candidaturas da medida 10 do PDR2020, relativas ao território de intervenção, que se estende pelos municípios de Alvito, Vidigueira, Portel, Montemor-o-novo, Cuba e Viana do Alentejo, onde tem a sua sede, nas Alcáçovas. A decisão das candidaturas enquadrada-se numa estratégia nacional, prevista no PDR2020 em conjunto com uma estratégia territorial que foi desenhada para o território da TD, no âmbito da qual o Órgão de Gestão foi criado. Fruto da minha experiencia como coordenador nacional do Programa Leader+ fui convidado para presidir a este OG. Sou igualmente diretor da TD.

 

O trabalho da Terras Dentro tem sido meritório, tanto ao nível do desenvolvimento territorial sustentado, como ao da forte preocupação com as condições humanas. Nos dias de hoje é bem evidente a assimetria litoral/interior. Na sua opinião, será este tipo de movimento associativo um apoio e uma esperança para as populações que vivem ainda um pouco “fechadas em si próprias” e, de alguma forma, entregues à sua sorte?

 Manifestamente SIM. O território da TD estende-se maioritariamente pelo Alentejo profundo e não regado. Sabemos bem o que significa a assimetria. A TD já empregou mais de 40 técnicos, atualmente tem a seu cargo cerca de 25. Muitas das pessoas que trabalham na TD vivem nas Alcáçovas ou em zonas rurais adjacentes. Formaram família e têm os filhos a estudar na escola das Alcáçovas. Haveria outra forma de conseguir estabelecer um conjunto de pessoas com esta formação numa zona de interior profundo de Portugal? Este é sem dúvida um caminho. Estas realidades não aparecem nas estatísticas.  A TD, no âmbito da sua estratégia, vai “buscar” e integrar os vários incentivos que o estado coloca ao dispor e “trabalha-os” por forma a que os apoios sejam canalizados. Mais nenhuma entidade faz esta integração de forma tão eficaz na sua região de intervenção como a TD.

 

Em que medida Associações como a Terras Dentro podem ter um papel fundamental no desenvolvimento da região?

 Neste Alentejo não regado, este tipo de associações do terceiro setor têm um papel fundamental no desenvolvimento económico e humano dos seus territórios. Como referi, a TD é um motor de desenvolvimento na região, e em particular do seu território de intervenção. É por essa razão que todos os municípios têm uma relação de enorme proximidade com a TD, por lhe reconhecerem seriedade e competência no trabalho. São verdadeiramente uma associação de Desenvolvimento Local, porque toda a sua intervenção tem como propósito o território e as pessoas que lá vivem.

A melhor forma de vermos a importância de alguém é perguntar, e se ele se fosse embora? E se a TD fosse embora do território? Não era o fim do mundo, mas não seria tão bom.

Por outro lado, e voltando ao tema das parcerias, toda a intervenção da TD é baseada em parcerias. Dialogo, partilha, coresponsabilização e, consequentemente, confiança. As parecerias nas organizações são o equivalente à socialização nos Homens, e hoje, em muitos estudos, sabe-se que o sucesso de cada um e das sociedades em geral tem a ver com o nível de socialização que ao longo da vida se consegue atingir.

 

O empreendedorismo de sucesso no Baixo Alentejo requer premissas muito específicas. Sabendo que existem condições para que o desenvolvimento regional seja uma realidade, qual seria o seu apelo enquanto empresário, e enquanto membro da Terras Dentro, no sentido de evidenciar que o Baixo-Alentejo vale a pena, sendo uma região onde o investimento  está na ordem do dia?

Todos temos um modelo de desenvolvimento baseado naquilo que vimos, que lemos, que ouvimos, que sentimos.  E isso faz-nos sonhar, com uma sociedade mais justa, feliz, jovem, tranquila, promotora de uma cidadania plena em todas suas dimensões.  O Alentejo pode um dia ser uma sociedade melhor, que persiga o nosso sonho. Temos um motor de desenvolvimento baseado em algo que é nosso e só nosso, a terra, o sol, o ar e o fogo, felizmente apenas nas lareiras.

O meu sonho para o Alentejo baseia-se acima de tudo nas pessoas. Mais saúde, com um novo Hospital, melhorar os programas de atividades não letivas, apostando fortemente nas atividades culturais e no desporto como elemento de partilha e desenvolvimento pessoal dos jovens, reforçar a ligação do IP Beja às empresas, promover uma forte e inovadora política de natalidade, apoiando os casais com filhos e os que os querem ter, desenvolver uma rede de apoio aos idosos, quer nos cuidados quer na sua participação na sociedade, desempenhando o voluntariado um papel fundamental, desenvolver uma postura ativa na captação de investimento, com a indústria com papel cimeiro, através de benefícios orientados,  desenvolver uma rede de mobilidade mais moderna, e tudo feito com a preocupação de sustentabilidade ambiental e equilíbrio social.

Isto seria o sonho, mas muito pode ser feito neste sentido, e quem o pode fazer? O Estado? Precisa de ser espicaçado e tem outras prioridades, já se viu. A sociedade civil? Sim, mas quem pode encabeçar o movimento? Quem o quer fazer? Se houvesse alma e ambição, acho que apenas um alguém está em melhores condições de o fazer. De liderar o processo. Necessitaria de alma, inteligência, ambição e altruísmo democrático. Seria um sonho, mas pode ser um sonho, O, não sei se este, porque não o conheço, Presidente da CM de Beja. Precisava de ser livre, verdadeiramente livre para encabeçar este movimento, porque de um movimento se trata. O resto são questões técnicas de planeamento e gestão. A Vontade não vem nas leis nem nos orçamentos, mas é quem move montanhas.

 

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